Em Tuas, oeste de Singapura, se avançou em direção ao mar no últimos anos para a construção de um megaporto.Sim Chi Yin
É o recurso natural mais requisitado, depois da água. O rápido
crescimento urbano do planeta transformou esse humilde material em um
bem escasso. Sua exploração excessiva tem efeitos ambientais
devastadores
Mergulhar por um dos maiores recifes de coral nas primitivas águas
das Ilhas Gili. Percorrer as infinitas praias de areia branca de Lombok.
Sucumbir à cativante espiritualidade de Bali. Ficar maravilhado com os
templos e vulcões de Java. Descobrir os orangotangos da selva de Bornéu.
Ficar surpreso com os dragões de Komodo. São algumas das maravilhas da
Indonésia, país de sonho composto por 17.500 ilhas. Um paraíso que
corremos o risco de perder, porque está afundando lentamente. O
motivo? A atividade clandestina dos ladrões de areia, que de noite se
aproximam da costa para roubá-la e vendê-la no mercado negro. No começo
da década de 2000, o comércio ilegal de areia na Indonésia chegou a uma
situação tão extrema que o país começou a perder território. Atualmente
25 ilhas já desapareceram e, com elas, suas praias. A areia é hoje o recurso natural mais requisitado do mundo,
depois da água e à frente dos combustíveis fósseis. Ela se transformou
em um bem muito valioso, imprescindível às civilizações modernas. “Nossa
sociedade está literalmente construída sob areia”, diz Pascal Peduzzi,
chefe da unidade de Mudança Global e Vulnerabilidade do Programa das
Nações Unidades para o Meio Ambiente e autor do relatório Areia, mais escassa do que pensamos (2014).
Um
imenso guindaste para dragagem extrai areia do leito marinho para um
novo terminal do porto de Tuas, na costa oeste de Singapura.VII (Contacto)
Tudo o que nos cerca contém areia: o cimento, o vidro, o asfalto, os
aparelhos eletrônicos. Até os plásticos, os cosméticos e a pasta de
dentes contêm esse elemento. Mas seu principal uso é a construção, que
consome um quarto da areia do planeta. Pelos grãos angulares e desiguais
da areia de praia, esta adere melhor ao se fabricar cimento; de modo
que o boom imobiliário devora quantidades enormes desse recurso. A
regulamentação escassa em muitos países encoraja a presença de redes
mafiosas. De acordo com um relatório das Nações Unidas, 54% da população
mundial vive em áreas urbanas e se prevê que o número aumente até 66% em
2050, sendo a Índia e a China os dois países em que o aumento será
maior. Esse desenvolvimento urbano exige enormes quantidades de areia
para o cimento. Uma casa de tamanho médio precisa de 200 toneladas; um
hospital, 3.000; um quilômetro de estrada, 30.000. Por ano são extraídos
59 bilhões de toneladas de materiais ao redor do mundo; até 85% é areia
para construção, diz Pascal Peduzzi.
Tudo o que nos cerca contém areia: o cimento, o vidro, o asfalto… Até o plástico
O problema é que a formação de areia é um processo natural lento, que
precisa de anos, e a demanda é superior à capacidade de regeneração e
fornecimento da própria natureza. “A nível mundial, consumimos o dobro
de areia que os rios podem transportar, de modo que precisamos escavar
em outras parte”, explica Nick Meynen, do Escritório Europeu do Meio
Ambiente. “Agora ela é obtida dragando rios e, em escala bem menor,
fundos marinhos. A estimativa é que entre 75% e 90% das praias do mundo
estão diminuindo”. As consequências ao meio ambiente são irreversíveis:
destruição dos habitats, degradação dos leitos marinhos, aumento de
materiais em suspensão, aumento da erosão... Se o ritmo vertiginoso da
extração de areia continuar, as gerações futuras verão entornos de
paisagens lunares, praias de rocha e ondas agitadas, rios e pântanos
secos, territórios áridos e extinção da flora e da fauna. “Todas essas
mudanças ambientais colocam em risco os ecossistemas nos rios, deltas e
áreas costeiras, de modo que existem inúmeras espécies ameaçadas, de
pequenos crustáceos a golfinhos de rio e crocodilos”, diz Aurora Torres,
pesquisadora do Centro Alemão à Pesquisa Integral da Biodiversidade. E
isso não é tudo. “Não somos conscientes do efeito cascata que essa
degradação causa em nosso bem-estar”, alerta, já que a exploração
excessiva de areia é ligada a um aumento de secas, inundações,
vulnerabilidade contra tempestades e tsunamis e a proliferação de
doenças infeciosas, como a malária. Também pode expulsar a população dos
locais mais afetados e transformar as pessoas em refugiados climáticos.
Montanhas
de material para construção, provavelmente com areia misturada com
granito, entram no porto ocidental de Singapura de barco.Sim Chi Yin
Não é preciso viajar à Indonésia para comprovar os efeitos do tráfico
de areia. O negócio está em alta no Marrocos. Armados com simples pás,
os trabalhadores ilegais carregam a areia em lombos de burro a caminhões
de transporte. Entre Safim e Essaouira, no oeste do país, o contrabando
transformou a costa dourada em uma paisagem rochosa. A areia é obtida
até do Saara. Apesar de não ter a qualidade da areia das praias, as
cidades de hoje precisam tão desesperadamente desse recurso finito e
limitado que o obtêm de qualquer lugar. As Ilhas Canárias são um dos principais destinos espanhóis da areia desse deserto, de acordo com denúncia da ONG Western Sahara Resource Watch (WSRW),
que há anos investiga o material que sai do porto de El Aiune (Saara)
em direção à Espanha para a regeneração de praias e construção de
edifícios. “As Canárias importam areia do Saara; a praia de Las
Teresitas é um exemplo conhecido”, diz Cristina Martínez, porta-voz da
WSRW. O Ministério da Agricultura e Pesca, Alimentação e Meio Ambiente da
Espanha admite que a areia das praias do país é um recurso muito
escasso. “A Lei de Costas de 1988 estabeleceu uma série de medidas para
limitar a extração de materiais rochosos naturais nos trechos finais dos
leitos dos rios e proibiu taxativamente a extração de areia para
construção”, diz um porta-voz. O ponto 2 do artigo 63 dessa lei proíbe
as extrações de areia para a construção, com exceção à criação e
regeneração de praias. O Ministério de Fomento acrescenta que a
tendência atual espanhola é “usar areia de trituração, que é a gerada
pelos seres humanos através da trituração de material de construção”.
Vista
aérea das obras para aumentar a área terrestre em Tuas, em Singapura,
para a construção de um dos maiores portos do mundo a partir da
escavação do leito marinho e da abertura de túneis na terra.Sim Chi Yin
O negócio da areia é tão lucrativo que se tornou um fenômeno mundial,
expandindo-se na mesma velocidade que a urbanização. O que há um quarto
de século era uma matéria-prima comum, abundante e barata, é hoje um
recurso escasso. Sua exploração é difícil de se controlar, porque está
ao alcance de todos. Apesar de existirem cada vez mais leis que
regulamentam sua extração, ainda não é o suficiente. “Em muitos casos o
problema não é a ausência de leis e sim sua falta de aplicação”, diz a
pesquisador Aurora Torres. Essa aplicação frouxa das leis cria o cenário perfeito para que
apareçam grupos organizados que controlam o negócio. Na Índia essas
máfias são particularmente poderosas, porque têm ligações com a
Administração e podem ter acesso aos processo de contratação. A extração
e venda de areia nesse país são regulamentadas a nível provincial, mas o
Governo central não é firme no cumprimento da lei. A corrupção é
palpável. “Normalmente, os políticos estão envolvidos e controlam
diretamente o negócio ilícito de areia” afirma Sumaira Abdulali,
ecologista, fundadora da Fundação Awaaz e uma das principais vozes de
denúncia em seu país. “Os dirigentes consideram que colocar restrições a
esse negócio deteria os ambiciosos planos de crescimento da Índia”. O
país extrai por ano 500 milhões de toneladas de areia, alimentando uma
indústria que movimenta 42 bilhões de euros (185 bilhões de reais). As
redes de extração de areia utilizam frequentemente pessoas em condições
deploráveis, sem equipamento e ferramentas, mergulhando no fundo dos
rios com um balde metálico.
A cada anos são extraídos do lago Poyang, na China, 236 milhões de metros cúbicos de areia
Como a Índia, nenhum dos países que vivem um período de expansão e
prosperidade urbana sem precedentes estão dispostos a deter esse
lucrativo negócio. Uma vez que a areia está cada vez mais em alta, esses
cenários são caldo de cultura para seu contrabando, que está crescendo
em outras partes do mundo. E quanto mais esse recurso é explorado em
excesso, mais rápido aumentam os impactos no meio ambientes e na
economia a nível global. A China usa 57% do cimento do mundo e é também o principal produtor
mundial. Com tudo o que usa, poderia construir por ano um muro de 27
metros de largura por 27 de altura ao redor da Terra, de acordo com
Pascal Peduzzi. A maioria da areia usada sai do lago Poyang, uma das
maiores reservas de água doce e hoje a maior mina de areia do mundo,
segundo pesquisadores de Harvard. Por ano são extraídos desse lago 236
milhões de metros cúbicos de areia, e os efeitos ao meio ambientes são
devastadores.
Fotos tiradas durante a construção do novo megaporto em Tuas, na costa ocidental de Singapura.Sim Chi Yin
E não se trata somente de cobrir as necessidades imobiliárias de sua
população: desde 2014, a China construiu sete ilhas artificiais no
arquipélago de Spratly, no Pacífico Sul, que disputa com Taiwan e o
Vietnã. O dano ao ecossistema marinho é irreparável. Uma das principais
consequências que mais preocupam os ecologistas é que está destroçando
as barreiras de coral que existem nessa área, que usam como base para
construir o novo território. Seu vizinhos Vietnã, Malásia, Filipinas e
Taiwan também expandiram seu território nesse arquipélago, mas nenhum o
fez com a magnitude e velocidade da China. Mas liderando os países que estão aumentando seu território de
maneira artificial encontra-se Singapura, que além disso é o maior
importador per capita de areia do mundo. Nos últimos 40 anos cresceu 130
quilômetros quadrados em terra (20%) utilizando 637 milhões de
toneladas de areia. E ainda pretende aumentar mais 100 quilômetros
quadrados antes de 2030. Os principais fornecedores são países vizinhos:
Indonésia, Filipinas, Vietnã, Myanmar (antiga Birmânia) e Camboja. Mas todos eles começam a ver como suas reservas escasseiam e estão parando as exportações, o que disparou o preço da matéria-prima em 200%. O primeiro a fazê-lo foi a Indonésia, após ver como muitas de suas
ilhas afundavam e desapareciam. Em 2007 decidiu acabar com todos os
negócios de areia, especialmente com Singapura, seu principal
exportador. Uma decisão que lhe custou uma disputa política com seu
vizinho sobre os limites exatos de suas fronteiras e o direito de uso
desse recurso.
“Muitas praias das Canárias se regeneram com areia de fora”, diz um empresário
Em 2017, o Governo do Vietnã anunciou que se o ritmo da demanda
continuasse como estava, em 2020 ficaria sem areia. Ao mesmo tempo, o
Ministério de Minas e Energia do Camboja anunciou que impediria todas as
exportações de areia a Singapura, que na última década comprou desse
país, de acordo com dados das Nações Unidas, mais de 72 milhões de
toneladas, equivalente a 624 milhões de euros (2,75 bilhões de reais).
Mas muitos especialistas duvidam que a situação tenha mudado. “No
Camboja governa uma cleptocracia que saqueia os recursos naturais em
detrimento do meio ambiente”, afirma George Boden, diretor da ONG Global
Witness. Os Emirados Árabes Unidos são outros dos maiores importadores de
areia, apesar de estarem cercados de deserto. Como consequência da
erosão do vento, essa areia não é a mais adequada ao cimento porque é de
baixa qualidade. Nas últimas décadas, Dubai importou da Austrália
enormes quantidades de areia para a construção de diversos complexos e
edifícios. Só para a torre Burj Khalifa, a mais alta do mundo, com 828
metros, foram necessários 110.000 toneladas de cimento. E as ilhas Palm,
um projeto ainda não terminado formado por três conjuntos de ilhas que
aumentará em aproximadamente 520 quilômetros a superfície das praias de
Dubai, devoraram 385 milhões de toneladas de areia, com um custo de 10
bilhões de euros (44 bilhões de reais). O mercado manda. E a demanda de areia está em alta. Nada irá deter a
exploração excessiva e o comércio ilegal desse recurso se a sociedade
internacional não unir forças. “Os Governos e líderes políticos devem
aumentar sua consciência sobre o tema e procurar alternativas ao uso de
areia”, diz Peduzzi. E é necessário fazê-lo rápido, porque o tempo joga
contra. Em um país como a Espanha, que vive do turismo, a erosão das praias
pode causar estragos na economia. Não é preciso somente uma
regulamentação legal nacional – que já existe – e sim padrões
internacionais que regulem a extração e obriguem países como a Índia,
Marrocos e Camboja a cumprir as regras do jogo para preservar o meio
ambiente e a economia tanto de seus países como de terceiros.
Singapura cresceu 20% e é o maior importador de areia ‘per capita’ do mundo
“Nossa dependência da areia é enorme e em um futuro próximo não vamos
deixar de usá-la”, diz Peduzzi. Mas sua utilização pode ser
racionalizada com medidas como evitar a construção de infraestrutura
desnecessária, planejá-la para que dure mais e modernizar as existentes.
Várias equipes de pesquisa em todo o mundo estudam materiais
alternativos na construção, a partir da reutilização de entulho e vidro,
mas hoje não existe nada que possa responder à enorme demanda desse
recurso. “Em áreas que não têm um ritmo de desenvolvimento elevado, a
reciclagem de materiais de construção pode cobrir parte da demanda, mas
os países que estão experimentando um rápido desenvolvimento urbano não
podem satisfazer a necessidade de areia com a reciclagem”, afirma
Torres. Além disso, o preço do material alternativo costuma ser mais
alto e causa mais emissões de gases de efeito estufa em sua produção. “É absolutamente necessário criar uma regulamentação internacional
para evitar o descumprimento que certos países cometem”, diz Sumaira
Abdulali. E isso significa saber a quantidade de areia usada a nível
local e global, assim como a quantidade que pode ser reposta através de
processos naturais. “É preciso conhecer quais são as reservas e
supervisioná-las para que a lei seja cumprida”. Caso contrário, nesse ritmo, o dragão de Komodo, os recifes de coral e
amplas áreas do deserto do Saara estão a caminho de se transformarem em
recordações que as futuras gerações só poderão ver em fotografias e
documentários.
Comentários
Postar um comentário
Todas postagem é previamente analisada antes de ser publicada.