Uma nova tecnologia para desmantelar o maior “lixão” de plástico do Pacífico
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Uma nova tecnologia para desmantelar o maior “lixão” de plástico do Pacífico
O projeto da fundação holandesa The Ocean Cleanup, financiado com 20 milhões de dólares, entra em sua fase operacional
Francesco Rodella
O sistema de limpeza da The Ocean Cleanup.Divulgação
Durante sua instalação em San Francisco,
parecia uma serpente marinha gigante. Mas é uma obra de engenharia
realizada para reduzir pela metade, em cinco anos, o enorme lixão oceânico de plástico
chamado Great Pacific Garbage Patch (O grande remendo de lixo do
Pacífico, em tradução livre). O projeto, desenvolvido pela fundação
holandesa The Ocean Cleanup
durante os últimos cinco anos, já está em sua etapa de funcionamento. A
obra consiste numa barreira formada por um tubo flutuante de 600 metros
de comprimento, que criará uma espécie de U para segurar os resíduos
graças ao empurrão do vento e das ondas. Um pac-man dos mares, segundo
os próprios responsáveis pelo projeto. A ideia é que o plástico seja
recolhido com barcos e levado à costa para ser reciclado. Mas parte da
comunidade científica levanta dúvidas sobre a eficácia da operação, que
custou mais de 20 milhões de dólares (83,2 milhões de reais) e os
possíveis riscos para a fauna marinha. Os testes, que começaram neste
sábado antes do início da operação, serão fundamentais para averiguar
essas possibilidades.
Tudo
começou em 2013 por iniciativa de Boyan Slat, um holandês que tinha 18
anos na época. O jovem ficou impressionado com a quantidade de resíduos
que encontrava quando ia mergulhar e decidiu arregaçar as mangas para
buscar soluções, como informa o site da The Ocean Cleanup. Slat queria
criar um método viável de concentração e recolhimento do lixo marítimo, e fundou a organização para desenvolver novas tecnologias.
Pouco mais de um ano depois, cerca de 100 cientistas voluntários haviam
se somado ao projeto. E a organização arrecadou quase 2,2 milhões de
dólares (9,15 milhões de reais) com uma campanha de crowfunding. Os pesquisadores que aderiram à iniciativa realizaram diversos estudos da área afetada pelo lixão de plástico.
Poucos meses atrás, os principais resultados de suas observações saíram
na Scientific Reports. O Great Pacific Garbage Patch abrange uma área
de 1,6 milhão de quilômetros quadrados, segundo os cálculos da fundação.
Ali já se acumulam 1,8 bilhão de resíduos de plástico, ou 80.000
toneladas. “Uma porcentagem significativa dos plásticos acaba retida em
redemoinhos criados pelas correntes”, explica a The Ocean Cleanup. “Uma
vez preso ali, o plástico se desfaz e se transforma numa armadilha para a
fauna marinha, enganada pela aparência de comida.”
Para a organização, tentar coletar todo esse lixo com embarcações e redes seria caro demais e geraria emissões prejudiciais ao meio ambiente,
além de danos à fauna marinha. A The Ocean Cleanup diz que é mais
viável um método “passivo” de concentração dos resíduos, que se move no
mesmo ritmo que as correntes. Daí a ideia de utilizar uma barreira
flutuante, chamada System 001: um tubo com uma cortina de três metros de
profundidade que captura o plástico e, ao mesmo tempo, deixa livre a
passagem de peixes debaixo dela. A fundação iniciou a fase operacional do projeto. O tubo foi
instalado com um barco do porto de San Francisco rumo a uma zona
intermediária em relação ao Great Pacific Garbage Path, situado a 240
milhas náuticas da costa. Um período de testes de duas semanas vai
averiguar a eficácia do sistema. Se tudo sair como o previsto, a obra de
engenharia será transportada diretamente à zona do lixão.
As dúvidas dos cientistas
Ainda restam dúvidas sobre a viabilidade da tecnologia. Alguns
oceanógrafos expressaram sua preocupação ante a possibilidade de que o
sistema possa causar danos aos animais marinhos. “Na parte superficial
do mar, há organismos de todo tipo”, afirma Jesús Gago, do Instituto
Espanhol de Oceanografia. “O esquema apresentado parece que vai
arrastando tudo. Pode existir esse risco [danos à fauna marinha]. Com os
testes, virá a prova de fogo.” Outra crítica é sobre a viabilidade econômica dessa
estrutura tecnológica. “A proposta de Boyan tem muito mérito. É uma
pessoa com iniciativa, e o que fez é impressionante. Mas a mensagem de
que é preciso investir milhões para retirar plásticos do meio do oceano
me deixa mais cético”, diz Gago. Em sua opinião, não se deve esquecer da
importância da prevenção para evitar o impacto da poluição de plástico.
Quantias tão grandes de dinheiro poderiam ser usadas “para evitar que o
plástico chegue ao oceano, em vez de ir pescá-lo em lugares remotos”,
considera.
A fundação explica que os testes servirão para esclarecer os aspectos
críticos do projeto, já que os protótipos e os experimentos prévios não
puderam tirar todas as dúvidas. Por exemplo, será avaliada a resposta
do sistema aos movimentos provocados pelo vento e as correntes, além da
capacidade de concentrar e reter o plástico capturado e da resistência a
elementos disruptivos do oceano, como as ondas e a corrosão provocados
pelo sal. A fundação também informa que diversos organismos, como a
Universidade de Miami e a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional,
dos EUA, ofereceram assessoria para garantir que a barreira flutuante
não gere impactos negativos aos animais marinhos. Os testes do sistema já começaram, segundo a The Ocean Cleanup. O
trajeto pode ser monitorado em tempo real no site da fundação, graças a
um sistema de localização por GPS instalado no tubo. O Great Pacific
Garbage Path fica cerca de 1.000 milhas mais longe. Os engenheiros da
fundação estimam que o sistema de coleta de lixo levará duas ou três
semanas para alcançar o lixão após o período de testes. As etapas
seguintes do projeto preveem que, “de poucos em poucos meses”, um barco
se aproximará do lixão para recolher os resíduos concentrados. A
organização também estuda formas para reciclar todo o plástico
recuperado e tornar economicamente sustentável o processo de limpeza das
águas com a venda de produtos feitos a partir desse material. Gago
acredita que essa missão terá suas dificuldades. “São materiais afetados
pela exposição solar e a água do mar. Não tenho certeza se esse
material pode ser usado numa usina de reciclagem de maneira simples”,
afirma. A fundação pretende desenvolver até 60 sistemas parecidos para
estender as operações de limpeza a outros lixões de plástico oceânicos.
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