Biossensor brasileiro avisa se alimentos estão contaminados por bactérias como a salmonella
Todos os anos, 10% da população do planeta contrai algum tipo de doença
transmitida por alimentos contaminados - desde infecções
gastrointestinais até meningite, informa a OMS (Organização Mundial da
Saúde).
As mortes por essas doenças chegam a 420 mil anualmente,
sendo crianças menores de cinco anos um terço das vítimas fatais. A
maioria dessas enfermidades é causada por bactérias como Salmonella spp., Escherichia coli e Staphylococcus aureus. Pensando nisso, um grupo de pesquisadores brasileiros desenvolveu um biossensor que usa nanopartículas magnéticas e uma substância extraída do veneno do ferrão de abelhas para detectar contaminação em comidas e bebidas de forma muito mais rápida e eficiente que os métodos tradicionais.
Segundo o físico Osvaldo Novais de Oliveira Junior, do Instituto de Física da USP de São Carlos, coordenador da equipe que desenvolveu o dispositivo, uma das maiores dificuldade para evitar as DTAs (sigla para doenças transmitidas por alimentos) é detectar bactérias no estágio inicial da contaminação, ou seja, quando o número delas ainda é muito pequeno.
"Nos métodos convencionais, amostras de alimentos ou bebidas são coletadas e depois levadas a um laboratório especializado para a verificação da formação de colônias delas", explica.
"Há outros métodos, como o ELISA (na sigla em inglês de Enzyme Linked Immunosorbent Assay) e PCR (Polymerase Chain Reaction), que podem fornecer respostas mais rápidas", diz Oliveira, que desenvolveu o biossensor em conjunto com pesquisadores Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e a Embrapa Instrumentação, da mesma cidade.
"O problema é que eles requerem equipamentos sofisticados e de alto custo e pessoal especializado para as análises."
"Nossa metodologia resolve o problema de detecção da contaminação inicial com uma estratégia de pré-concentração das bactérias na amostra."
De acordo com ele, o sensor propriamente dito é bastante simples. Ele contém eletrodos de prata, depositados sobre filmes de um plástico, o poli (tereftalato de etileno) - ou PET -, com uma técnica de serigrafia. A tinta do metal é espalhada sobre o polímero usando uma máquina produzida no Brasil com uma tela de poliéster.
"O que é especial nele é a possibilidade de se produzir grandes quantidades a baixo custo, e em outros tipos de materiais", conta Oliveira. "Não só no PET, mas também em papel e tecidos, como já testamos em nossos laboratórios."
O outro ingrediente essencial do ensaio é a pré-concentração das amostras. Isso é feito para resolver a dificuldade da detecção de pequenas concentrações de micro-organismos. Na tecnologia desenvolvida em São Carlos, nanopartículas magnéticas produzidas em laboratório pelos pesquisadores são recobertas com melitina, a substância extraída do veneno do ferrão da abelha, que tem afinidade com bactérias.
Quando essas nanopartículas são introduzidas em uma amostra líquida a ser analisada, as bactérias eventualmente presentes se dirigem a elas devido à presença da melitina. Após um determinado tempo - cerca de 20 minutos -, as nanopartículas magnéticas, com os micro-organismos aderidos, são atraídas com um ímã. É este material com bactérias pré-concentradas que é usada para a detecção. No caso de alimentos sólidos, uma pequena amostra triturada, homogeneizada e filtrada bastará para fazer o mesmo procedimento.
"O processo de medida é rápido, cerca de alguns minutos, o que é vantajoso sobre os métodos tradicionais."
Nesses, segundo o pesquisador da USP, é necessário analisar todo o volume ou massa do alimento ou bebida e acompanhar o crescimento das bactérias para que seja possível contá-las na colônia. Esse procedimento pode demorar entre 24 e 72 horas, para os casos de contaminação em estágio inicial, ou seja, com pequeno número de micro-organismos.
Oliveira cita uma série de vantagens da tecnologia que seu grupo desenvolveu. "A primeira delas é o menor tempo requerido para a análise, pois são eliminadas as etapas de cultivo e crescimento das bactérias", diz. "Isso permite monitoramento em tempo real. A outra é o possível baixo custo de cada análise, pois os eletrodos são muito baratos (cerca de R$ 0,30 cada)."
Além disso, os procedimentos também podem ser de baixo custo se a metodologia for usada em grande escala. "Outra possível vantagem é a simplicidade na realização das medidas de detecção, mesmo para pequenas concentrações de bactérias, o que pode ser feito por não especialistas em análises, com pouquíssimo treinamento", acrescenta Oliveira.
Os pesquisadores testaram o biossensor que desenvolveram em três espécies de bactérias: Salmonella thyphi, Escherichia coli e Staphylococcus aureus.
A primeira pode ser encontrada em alimentos como ovos e aves e causar febre tifoide. A segunda, por sua vez, é bastante comum no intestino dos humanos e no de alguns animais. Mas existem cepas patógenas (que causam doenças) relacionadas a diferentes tipos de problemas, incluindo infeções gastrointestinais, urinárias e até meningite.
Por fim, a Staphylococcus aureus é encontrada em diferentes ambientes e pode causar doenças como conjuntivite, meningite e pneumonia. "Essas bactérias podem estar presentes em qualquer tipo de ambiente onde as condições de esterilização não sejam rigorosas", alerta Oliveira. "É o caso de alimentos manipulados de forma inadequada, como na indústria ou em supermercados."
Além disso, o biossensor criado em São Carlos poderá ter outras aplicação. Com algumas adaptações, será possível usá-lo para detectar diferentes tipos de contaminação em ambientes hospitalares, como enfermarias e salas de cirurgia, bem como em instrumentos e equipamentos utilizados nesses ambientes, e também em pacientes com feridas, queimaduras e escaras.
Fonte: BBC
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