A quantidade dessas partículas nos Pirineus é similar à encontrada em Paris e nas cidades industriais chinesas
Miguel Ángel Criado
Até aqui chegam os microplásticos. Vista dos arredores da estação de Bernadouze.Gaël Le Roux
Nem as grandes montanhas se livram do plástico. Um estudo encontrou,
no ponto mais remoto dos Pirineus, uma concentração de microplásticos
similar à que podemos achar numa capital como Paris
ou nas cidades industriais chinesas. Levadas até lá pelo vento, essas
partículas podem percorrer vários quilômetros até cair, arrastadas pela
chuva ou a neve. As cordilheiras, os vales e outros ambientes naturais
poderiam abrigar o plástico que falta nas estatísticas. Das 355 milhões de toneladas de plásticos criadas em 2016, cerca de 60 milhões foram produzidas na Europa, segundo dados do setor.
Naquele mesmo ano, 27,1 toneladas chegaram às usinas de reciclagem e
lixões. Embora muitos materiais plásticos sejam projetados para durar
anos ou décadas (como os do painel do carro e os isolantes de muitos
edifícios), diversos estudos estimam que uma boa porcentagem acaba no mar – os otimistas falam em 10% da produção anual. Onde está o resto?
Na estação meteorológica de Bernadouze, na parte francesa dos
Pirineus, os técnicos medem a temperatura do ar, a velocidade e a
direção do vento, a chuva e a altura da neve – quando existe. Mas,
durante cinco meses entre 2017 e 2018, eles também registraram a
quantidade de plástico que caía no solo. Os resultados foram publicados
agora na Nature Geoscience.
E mostram que até mesmo a essa estação, situada a 1.425 metros de
altura e a 25 quilômetros do primeiro povoado digno de tal nome, chegam
todo dia em média 365 partículas por metro quadrado. “A quantidade de partículas de microplásticos encontradas ao
estudarmos os remotos Pirineus está dentro do padrão encontrado numa
megacidade como Paris”, diz a pesquisadora Deonie Allen, do Laboratório
de Ecologia Funcional e Meio Ambiente (EcoLab, com sede em Toulouse, França)
e coautora do estudo. De fato, dois estudos recentes realizados na
capital francesa obtiveram um número de fibras de plástico
comparativamente similar. A cifra também supera a parte superior da
margem obtida em Dongguan, uma metrópole chinesa de mais de 8 milhões de
habitantes. Lá, um amplo estudo sobre a presença de microplásticos no
ar estimou uma média de 175 a 313 partículas diárias por metro quadrado.
Esse novo trabalho encontrou plásticos de quase todo tipo, incluindo
fragmentos, fibras e o utilizado nas sacolas. Os pesquisadores também
identificaram alguns tipos esféricos, mas seu desgaste os impediu de
confirmar se eram microesferas, ainda usadas na indústria de cosméticos.
A maioria dos fragmentos tinha um diâmetro inferior a 50 mícrons (ou
0,05 mm) e quase todas as fibras e filmes superavam 100 mícrons (0,10
mm) de comprimento. Os plásticos mais abundantes são o poliestireno e o
polietileno. Usados para fazer sacolas e embalagens, eles são – em
teoria – recicláveis. Outra grande categoria (18%) são as fibras de
polipropileno, comuns na indústria têxtil. Jinping Peng, professor da Universidade de Tecnologia de Guangdong,
estuda há anos a poluição atmosférica causada pelos microplásticos.
Embora não tenha participado do estudo dos Pirineus, ele recorda que, em
seus trabalhos de monitoramento dos resíduos em Dongguan e nos
distritos vizinhos, a quantidade de microplásticos estava associada à
densidade populacional. “Mas pode haver outras razões afetando a
abundância dos microplásticos, como a velocidade e a direção do vento, o
que explicaria a concentração similar dessas partículas nos Pirineus”,
afirma.
A maioria dos plásticos coletados nos Pirineus é invisível a olho nu.Steve Allen
Como não há grandes centros urbanos nas redondezas para dar pistas
sobre tamanha concentração, só o transporte aéreo pode explicar que
tenham chegado até lá. Estudos anteriores já haviam demonstrado que as
bactérias podem viajar milhares de quilômetros até chegar a montanhas
como as da Serra Nevada. As incursões de pó do Saara
no centro da Europa também são bem conhecidas. Os fragmentos de
plástico podem ser ainda menores que um grão de areia, e as fibras e o
filme têm maior capacidade para flutuar. De modo que a resposta estaria
no vento. “O que podemos demonstrar, de maneira inequívoca, é que
[essas partículas] estão sendo transportadas até lá pelo vento”, diz em
nota o pesquisador Steve Allen, da Universidade Strathclyde (Reino
Unido) e coautor do estudo. Usando um modelo que empregou as velocidades
e a trajetória dos ventos, além dos dados de deposição, os cientistas
estimaram que as micropartículas chegavam até montanhas a pelo menos 95
quilômetros de distância. Mas Toulouse, Zaragoza e Barcelona estão ainda
mais longe. E, no caso das duas últimas, o plástico teria que superar
muito mais montanhas. Isso é o que os pesquisadores querem estudar
agora: quanto o microplástico pode viajar pelo ar. Rachid Dris, cientista da Universidade Paris-Est especializado no
estudo dos microplásticos em ambientes urbanos, diz que essas partículas
“podem chegar a qualquer parte, como ficou provado em todos os tipos de
habitat, incluindo os mais distantes, como os lagos remotos e o Ártico.
Portanto, já se considerava o ar como uma importante rota de transporte
para os microplásticos”. Para Dris, que não tem relação com o estudo, a
descoberta recente das partículas nos Pirineus não causa surpresa. “É
evidente que as condições meteorológicas desempenham um papel: os
microplásticos provavelmente são transportados nos momentos de maior
vento e caem quando a corrente diminui. Além disso, a neve e a chuva
podem provocar um arrasto que aumenta a deposição”, afirma.
Em Dongguan, cidade industrial chinesa de 8
milhões de habitantes, a concentração de microplásticos registrada foi
menor que a encontrada nos Pirineus.
Resta saber como essas partículas afetam a saúde das pessoas, pois já
foram encontradas no intestino humano. Todos os pesquisadores
mencionados neste artigo concordam que é urgente determinar o impacto
causado pela inspiração de um ar repleto de plástico.
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