As maiores notícias sobre ciência e meio ambiente de 2019
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As maiores notícias sobre ciência e meio ambiente de 2019
Paul RinconEditor de ciência, BBC News
30 dezembro 2019
Neste
ano, milhões de pessoas pelo mundo se mobilizaram para chamar atenção
para a situação de emergência em que nosso planeta está. Será que 2019
ficará conhecido como o ano em que palavras viraram ações em relação à
crise climática? Relembramos as maiores histórias neste ano sobre ciência e meio ambiente. O ano em que o mundo acordou?
Greta Thunberg (no centro) entre manifestantes em uma greve pelo clima em Vancouver, no Canadá, em outubro
Em
2019, a reação global à crise climática aumentou de ritmo. Inspirado na
ativista sueca Greta Thunberg, o movimento de greves pelo clima ganhou
força. Milhões se juntaram a protestos durante um ano em países tão
diversos quanto Austrália, Uganda, Colômbia, Japão, Alemanha e Reino
Unido.
Greta chamou a atenção quando foi de barco, em vez de
avião, para um encontro sobre o clima em Nova York. "Eu sentia que era a
única que me importava com o clima e a crise ecológica... Agora, me
sinto bem porque sei que não estou sozinha nessa luta", afirmou. O grupo Extinction Rebellion (Rebelião contra a
Extinção, em tradução livre), do Reino Unido, executou diversas ações
não violentas em 2019, também em protesto contra a crise climática. O
grupo, que pede ações dos governos sobre a mudança climática, ocupou
cinco lugares famosos no centro de Londres em abril de 2019. Eles
"ancoraram" um barco rosa no meio de uma das avenidas mais movimentadas
em Oxford Circus com a frase "Digam a verdade". A verdade a que se referem é a de que o mundo estaria em meio a uma emergência climática, e governos precisam admitir isso. O Parlamento britânico, aliás, declarou uma emergência climática no país, cedendo a uma das reivindicações do grupo. Mas
também houve revezes nos esforços políticos para reduzir a emissão de
gases do efeito estufa. Os Estados Unidos, um dos maiores emissores do
mundo, começou o processo de saída do Acordo de Paris. O acordo
foi anunciado em 2015 com a intenção de limitar o aumento da temperatura
média global a menos de 2 graus. O presidente Donald Trump disse que o
pacto era ruim para a economia americana e empregos. O encontro climático da ONU deste ano, COP25, acabou em um acordo descrito por muitos como "decepcionante". O
Brasil ficou muitas vezes no centro dessa discussão de meio ambiente e
crise climática. Primeiro, por causa das queimadas na Amazônia. E, em
segundo lugar, por causa do derrame de óleo na costa brasileira e a
demora do governo em lidar com suas consequências.
'Anel de fogo'
Direito de imagemEHT CollaborationRede de oito telescópios pelo mundo registrou a primeira imagem de um buraco negro
Em abril, astrônomos divulgaram uma imagem muito
esperada: a de um buraco negro. É uma região no espaço da qual nada, nem
mesmo a luz, pode escapar. A foto foi tirada por uma rede de oito
telescópios espalhados pelo mundo e mostra o que foi descrito como um
"campeão dos buracos negros". O monstro de 40 bilhões de
quilômetros de largura tem uma aréola intensa, ou "anel de fogo", ao
redor. O fenômeno é causado por um gás superaquecido que cai dentro do
buraco negro. A imagem causou sensação e levantou a bola para uma
das cientistas computacionais que trabalhou no projeto, Katie Bouman,
de 29 anos. Ela ajudou a desenvolver o algoritmo que permitiu que a
imagem pudesse ser criada. A foto dela com as mãos sobre a boca, sem
conseguir conter a alegria com a imagem que aparecia em seu notebook,
viralizou nas redes sociais. Mas sua fama levou a acusações de que
ela teria levado o crédito pelo trabalho de um colega homem. E ele,
Andrew Chael, a defendeu. Em uma entrevista à BBC, Bouman disse: "No
começo, fiquei muito assustada com isso. Mas... Eu acho, sim, que é
importante chamarmos a atenção para as mulheres nesses papéis (na
Ciência)."
Terra e oceanos sob ameaça
Dois
importantes relatórios da ONU revelaram o tamanho da devastação humana
na superfície da Terra e nos oceanos. O primeiro desses documentos do
Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC) alertou que
temos que parar de abusar da Terra se quisermos impedir uma mudança
climática catastrófica. O estudo mostrou como nossas ações estão
degradando o solo, expandindo desertos, acabando com florestas e levando
outras espécies à extinção. Cientistas envolvidos no processo da ONU
também explicaram que mudar para uma dieta baseada em plantas também
pode ajudar a conter a mudança climática.
Direito de imagemGetty ImagesUm aumento de 1,5º C na temperatura das águas pode acabar com os corais
O segundo relatório, sobre os oceanos do mundo e
regiões congeladas, detalhou como o nível das águas está subindo, o gelo
está derretendo e espécies estão sendo forçadas a migrar. Um
coautor do estudo, Jean Pierre Gattuso, afirmou que "o planeta azul está
seriamente em perigo agora, sofrendo muitos danos de muitas fontes
diferentes e é nossa culpa". Os autores dizem acreditar que as
mudanças que provocamos vão cobrar seu preço. O aumento do nível do mar
vai trazer profundas consequências para áreas costeiras vulneráveis onde
vivem quase 700 milhões de pessoas.
Voo de reconhecimento
Direito de imagemNASA/JHUAPL/SWRI/Roman TkachenkoArrokoth pode ser um objeto de gelo primitivo encontrado pela Nasa
No dia 1º de janeiro, a nave espacial New Horizons,
da Nasa, fez a exploração mais distante até hoje de um objeto do Sistema
Solar. Lançada lá nos idos de 2006, ela cumpriu sua tarefa
primária - um estudo sobrevoando o sistema de Plutão - em 2015. Mas
ainda com muito combustível no tanque, cientistas decidiram direcionar a
nave espacial para um novo alvo, um objeto chamado 2014 MU 69. MU
69, depois chamado de Ultima Thule, e mais recentemente Arrokoth, pode
ser um objeto de gelo primitivo na área distante do nosso Sistema Solar
chamada de Cinturão de Kuiper. Há centenas de milhares de objetos
como esse, e seu estado congelado pode guardar segredos de como todos os
corpos planetários se formaram há 4,6 bilhões de anos. Neste ano,
cientistas apresentaram detalhes sobre o que haviam encontrado em uma
grande conferência em Houston, no Estado americano do Texas. Eles
determinaram que duas partes do Arrokoth se formaram quando dois
objetos distintos colidiram a uma velocidade relativamente baixa - cerca
de 3 metros por segundo, segundo um membro da equipe, Kirby Runyon.
Recorde do derretimento de gelo na Groenlândia
Direito de imagemSteffen OlsenO cientista climático Steffen Olsen tirou essa foto enquanto viajava pelo gelo derretido na Groenlândia
Em setembro, o cientistista do Reino Unido David
King disse estar assustado com o rápido ritmo das mudanças relacionadas
ao clima no mundo. Um dos exemplos mais chocantes, para ele, é o recorde
de derretimento de gelo na Groenlândia. Em junho, a temperatura
subiu a níveis muito acima dos normais no território dinamarquês,
fazendo com que metade de sua superfície de gelo derretesse. Só em 2019,
a Groenlândia perdeu gelo o suficiente para aumentar os níveis do mar
em mais de um milímetro. Há tanta água congelada na Groenlândia
que se toda sua camada de gelo descongelasse, ela aumentaria os níveis
do mar em até 7 metros. Embora isso pudesse levar centenas ou milhares
de anos, cientistas polares disseram em uma reunião da American
Geophysical Union em dezembro que a Groenlândia estava perdendo seu gelo
7 vezes mais rápido que nos anos 1990.
Rochas no espaço
Direito de imagemNASAModelo 3D do asteróide Bennu, criado usando dados da missão da Nasa Osiris-Rex
Enquanto vemos muitos asteróides rondando a Terra em
filmes, a probabilidade de um se chocar contra a Terra é pequena. Mas
como os dinossauros descobriram, o risco aumenta com o tempo. Cerca de
19 mil asteróides próximos à Terra estão sendo monitorados, mas muitos
não são detectados por telescópios, então sempre existe a chance de uma
colisão ocorrer "de surpresa". Em março, cientistas da Nasa
disseram à Conferência de Ciência Lunar e Planetária que uma grande bola
de fogo havia explodido na atmosfera da Terra no fim de 2018. Uma rocha
espacial veio sem aviso e detonou com 10 vezes mais energia que a bomba
atômica em Hiroshima.
Por sorte, a rocha explodiu sobre o mar da remota península
Kamchatka, na Rússia. Mas uma explosão daquele tamanho poderia ter
trazido sérias consequências se tivesse acontecido mais perto do solo,
sobre uma área densamente povoada. E em julho, um asteróide do
tamanho de um campo de futebol chegou perto da Terra, a 65 mil km da
superfície do planeta - quase um quinto da distância à Lua. A rocha de
100 metros foi detectada apenas dias antes de passar pela Terra. Enquanto
isso, duas naves espaciais robóticas examinam diferentes objetos
próximos à Terra. Cientistas trabalhando na missão Hayabusa, do Japão,
reportaram que o asteróide identificado, Ryugu, era um destroço de um
objeto ainda maior.
O 'vilão desconhecido' do aquecimento
Direito de imagemGetty ImagesAparelhagem de distribuição elétrica em muitos lugares do mundo usa o SF6 para evitar incêndios
O gás hexafluoreto de enxofre (SF6) não é muito
conhecido. Mas como um dos gases de efeito estufa mais estudados pela
Ciência, pode exercer um papel cada vez mais importante nas discussões
sobre mudanças climáticas. Há uma consequência não intencional no
"boom" de energia limpa. O gás barato e não inflamável é usado para
previnir curto-circuitos e fogo em interruptores e disjuntores de grande
porte. Com mais turbinas sendo construídas ao redor do mundo, mais desses aparelhos estão sendo instalados. A maioria usa o gás. Embora
concentrações atmosféricas sejam pequenas por agora, a base global de
SF6 usado deve crescer em até 75% até 2030. É preocupante, já que não há
mecanismo natural que destrua ou absorva o gás quando ele é solto na
atmosfera.
Corrida quântica
Direito de imagemGoogleProcessador Sycamore, apresentado pela Google, seria o primeiro de um computador quântico, segundo a empresa
Computadores quânticos são uma grande promessa. Eles
prometem velocidade e habilidade de resolver problemas que estão além
dos tipos convencionais mais poderosos. Mas cientistas têm tido
dificuldade para construir aparelhos com unidades de informação (bits
quânticos) para fazê-los competitivos com computadores clássicos. Uma
máquina quântica não havia ultrapassado uma convencional até este ano.
Em outubro, a Google anunciou que seu processador quântico avançado,
Sycamore, havia atingido "supremacia quântica" pela primeira vez. Pesquisadores
dizem que o processador cumpriu em 200 segundos uma tarefa específica
que o melhor supercomputador convencional existente no mundo levaria 10
mil anos para completar. A IBM, que também está trabalhando para
conseguir viabilizar computadores quânticos, questionou alguns números
apresentados pela Google. Mas o feito representa um passo importante
para cumprir algumas das previsões feitas para esses supercomputadores. Fonte: BBC
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