Krakatoa, o inferno de Java: a erupção há 137 anos que foi sentida no planeta inteiro
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Krakatoa, o inferno de Java: a erupção há 137 anos que foi sentida no planeta inteiro
BBC
24/01/2020
Em 1883, o mundo presenciou um evento natural tão bombástico
e violento que pôde ser notado de alguma forma por praticamente todos
os habitantes do planeta. A erupção do vulcão Krakatoa, na
Indonésia, lançou detritos a até 100 km de altura, causou megatsunamis
que mataram milhares de pessoas e foram percebidos até no Canal da
Mancha. O fenômeno alterou o clima do planeta, mexeu com a luz, com o ar
e até com as cores do crepúsculo em vários cantos da Terra. Além disso,
teve grande — e talvez pouco conhecido — impacto no mundo das artes,
das comunicações e da ciência. A história desse extraordinário evento é contada em um podcast da série Que História!, da BBC Brasil, que traz, também, o depoimento de uma testemunha da erupção, encontrado nos arquivos da BBC.
Tiro de canhão A
pequena ilha de Krakatoa, no meio do estreito de Sunda, entre as
grandes ilhas de Sumatra e Java na Indonésia, foi praticamente destruída
no dia 27 de agosto de 1883, uma segunda-feira, pela explosão de um
vulcão. As erupções tinham começado no domingo, mas a mais violenta
delas foi a terceira erupção da segunda-feira, uma explosão gigantesca,
um barulho tão alto que foi ouvido a 5 mil quilômetros de distância, nas
ilhas Mauricio — onde se achou que era um tiro de canhão dado por um
navio. Imagine um som gerado no Rio de Janeiro, que cruza o
Atlântico e é ouvido em Dakar, no Senegal. Não à toa, a explosão do
Krakatoa é tida até hoje como o som mais alto já ouvido na História. Foi
tão poderoso que há relatos de ter rompido os tímpanos de marinheiros
que estavam a dezenas de quilômetros de distância.
Direito de imagemGetty ImagesIlustração do Krakatoa antes da erupção de 1883
"As reverberações das explosões foram
inacreditáveis, é difícil descrever o barulho e o caos que eu
presenciei", disse à BBC, em 1946, Sidney Baker, que na época do
Karakatoa era um adolescente no navio de seu pai, o W.H. Besse, de
bandeira americana, que viajava de Batávia (nome da então capital das
Índias Orientais Holandesas, atualmente Jacarta, capital da Indonésia)
aos Estados Unidos. O navio estava no Oceano Índico a noroeste de
Krakatoa. "O ar tinha tanta poeira, que a gente achou que fosse
sufocar. E estava tão escuro, que você não conseguia ver a mão colocada
na frente do rosto. E as cinzas choviam no mar... Sobre o navio havia
quase 20 centímetros de camadas de cinzas", contou Baker. Simon Winchester, o autor de Krakatoa, The Day the World Exploded (Krakatoa: o Dia em que o Mundo Explodiu, em tradução livre) dá uma ideia da destruição deixada pelo vulcão em entrevista ao programa Witness History, da BBC. "Precisamente
às 10h e 5 minutos locais, a ilha, basicamente de 10 quilômetros
cúbicos, foi desintegrada por uma explosão, que lançou rochas e cinzas a
até 100 quilômetros de altura. A ilha desapareceu, e deixou, por alguns
segundos, um enorme buraco no mar. Esse buraco foi enchido por trilhões
de toneladas de água. Estava tão quente no interior desse buraco que a
água imediatamente se converteu em vapor. Esse vapor causou tsunamis
gigantes, quatro ao todo, que causaram um enorme estrago nas costas de
Sumatra e Java."
Direito de imagemTropenmuseum/NetherlandsÀ direita, homem posa ao lado de coral arremessado
pela erupção do Krakatoa sobre região de Anjer, na ilha de Java, em foto
de cerca de 1885
E não foi apenas a cratera e o vapor que causaram os
tsunamis, mas também a enorme quantidade de água deslocada pela lava,
rochas e outros detritos expelidos pelas erupções. Vários vilarejos e
cidades costeiras na Indonésia foram invadidas pelas ondas e
completamente inundados. Entre elas, a cidade de Anjer, na ilha de Java. "O
barco de meu pai estava a caminho de Anjer" contou Sidney Baker, "e a
cidade desapareceu completamente sob a água. A gente estava navegando
por cima dela. Me lembro de ouvir meu pai dizendo que se jogasse uma
âncora, ela ficaria presa na chaminé de uma casa." "O mar estava cheio de toda espécie de destroços. Vilarejos levados pela água, corpos por tudo o que é lado." Os
tsunamis mataram cerca de 40 mil pessoas nas cidades costeiras do
estreito de Sunda, e avançaram pelos oceanos Índico e Pacífico. Segundo
Winchester, as ondas "chegaram à costa leste da África e subiram o
Atlântico". "Marégrafos (aparelhos medidores das variações do nível do
mar) detectaram as ondas empurradas pelos tsunamis em lugares distantes
como Biarritz, na França, o Canal da Mancha e Portland, na costa oeste
americana."
O céu, o ar e as cores
E
não foi apenas nos oceanos que o Krakatoa deixou sua marca. A incrível
força da explosão liberou uma energia estimada em 200 megatons — mais de
10 mil vezes a força da bomba atômica de Hiroxima. Isso criou uma onda
de pressão que deu a volta no planeta três vezes.
Direito de imagemWilliam Ascroft/Science MuseumCrepúsculo sobre o rio Tâmisa em Chelsea, Londres,
em 26 de novembro de 1883, em desenhos em pastel de William Ascroft
Os efeitos da luz do sol refratada pelas partículas
na estratosfera expelidas pelo vulcão mexeram com a aparência dos
crepúsculos e das auroras. "Quando chegamos em casa, nos Estados Unidos,
notamos que isso estava acontecendo no mundo inteiro." Descrições
da época dão conta de crepúsculos extraordinariamente vívidos e
brilhantes, que teriam inspirado poetas e pintores em lugares distantes
como a Europa. "Um pintor em Chelsea, Londres, William Ascroft,
ficou encantado com os deslumbrantes tons de roxo, vermelho e laranja do
pôr do sol — pelo que hoje sabemos ter sido o efeito da poeira
suspensa na estratosfera —, e produziu, no inverno de 1883, à beira do
Tâmisa, centenas de aquarelas que parecem fotos e dão uma ideia do
fenômeno", disse Winchester.
Direito de imagemWilliam Ascroft/Science MuseumDez esboços do pôr do sol em Chelsea, pintados em 8 de setembro de 1883 por William Ascroft
"E nos Estados Unidos também. Teve um pôr do sol tão
intenso em Poughkeepsie, uma cidade à beira do rio Hudson, no Estado de
Nova York, que os bombeiros enviaram carruagens com água achando que
havia um incêndio na beira do rio. Chegando ali, viram que não havia
fogo algum, apenas esse pôr do sol extraordinário. E hoje, muitos
especialistas estão convencidos de que o famoso quadro O Grito, de Edvard Munch retrata um céu de intenso laranja e roxo, que teria sido inspirado nesse céu." Para
Winchester, a explosão do Krakatoa também marcou uma grande mudança no
mundo das comunicações, pois teria sido o primeiro grande evento
noticiado em rede global. "Quando (Abraham) Lincoln, o presidente
americano, foi assassinado, cerca de 20 anos antes, demorou 12 dias pra
que a notícia chegasse a Londres. Mas, nesse meio tempo, houve avanços
na tecnologia de instalar cabos de telégrafo atravessando os oceanos. E
isso permitiu que uma mensagem enviada pelo correspondente da agência
Reuters em Java — "explosão gigante, Krakatoa, vários mortos" — chegasse
a Batávia e de lá fosse telegrafada a Londres, onde chegou quatro
minutos depois. E pouco depois chegava a várias cidades do mundo. Eu
acho que a erupção do Krakatoa e a cobertura desse evento marca o
nascimento do que a hoje a gente conhece como aldeia global." O establishment
da ciência, liderado na época pela Royal Society, a tradicional
academia de ciências do Império Britânico, queria entender as possíveis
razões para que os efeitos do Krakatoa fossem sentidos em lugares tão
distantes. Essas pesquisas levaram à descoberta das correntes de ar na
atmosfera. E os cientistas começaram a entender que o mundo era
governado por forças globais.
Direito de imagemGetty ImagesO Anak Krakatoa em foto aérea de agosto de 2018, o
"filho do Krakatoa" emergiu da caldeira do vulcão original em 1929
"Foi o primeiro evento que fez o mundo entender que
era uma entidade interconectada", disse Winchester. "Coisas que hoje a
gente aceita naturalmente, como aquecimento global, aumento dos níveis
do mar, tudo isso vem da percepção de um mundo interconectado que nasceu
com a erupção do Krakatoa." Os efeitos da explosão de 27 de
agosto de 1883 foram sentidos por muito tempo. A queda na temperatura
média global no ano seguinte, chuvas recordes nos Estados Unidos e um
aumento na concentração de ácido sulfúrico nas nuvens, tudo isso foi
atribuído ao vulcão. Há estimativas de que o clima só voltou ao normal cinco anos depois, em 1888. O
pôr do sol roxo, vermelho, laranja, infelizmente nunca mais deu as
caras, mas a mesma ilha do Krakatoa voltou a causar destruição e mortes
em 2018, com a erupção do Anak Krakatoa — nome indonésio que quer dizer
"filho de Krakatoa". O Anak Krakatoa emergiu da caldeira deixada pela
explosão do Krakatoa em 1929, tem crescido em tamanho desde então e hoje
tem cerca de 2 km de diâmetro.
Direito de imagemReutersO Anak Krakatoa em 23 de dezembro de 2018
Em dezembro passado, uma violenta erupção do Anak provocou um tsunami que matou quase 300 pessoas e deixou mais 1 mil feridos.
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