Por que milionários doam tanto dinheiro para salvar humanos da inteligência artificial?
Elon Musk (Tesla), Reid Hoffman (LinkedIn) e Pierre Omidyar (eBay) deram quase US$ 40 milhões para uma causa que já desperta a atenção da Casa Branca.
Um dos méritos de “Exterminador do futuro” é o de criar a ideia de que
qualquer avanço na robótica ou em sistemas de inteligência artificial
vai dar origem à Skynet, plataforma conectada que controla as máquinas
contra os humanos nos filmes estrelados por Arnold Schwarzenegger. O
temor sobre o futuro diante da suposta “ameaça das máquinas” atinge
também bambambans da tecnologia, como Elon Musk, CEO da Tesla; o físico
Stephen Hawkings; e Bill Gates, da Microsoft.
O lance mais recente dessa cisma foi dado por outras figurinhas
conhecidas do setor. Reid Hoffman e Pierre Omidyar, fundadores de
Linkedin e eBay, respectivamente, deram um pouco de suas fortunas para
criar um fundo que pesquisará como a inteligência artificial pode ser
mais ética. Juntando esforços dos dois, a turma do “tenho medo” já doou
quase US$ 40 milhões para “salvar” os humanos. E os primeiros resultados
começam a sair do papel.
Você já deve ter usado um serviço de inteligência artificial. Ou
conhece alguém que tenha usado. Basta recorrer a um chatbot no
Messenger, do Facebook, ou perguntar à Siri, da Apple, se vai chover
amanhã. Exemplos de inteligência virtual e de máquinas que reagem a
estímulos externos estão saltando da ficção para a realidade
constantemente (às vezes, literalmente).
Grupo a favor: mais avanços que perigos
Depois de se digladiar por PCs, software e celulares, a indústria
parece se acotovelar agora para definir parâmetros do uso da
inteligência artificial. “Ela é uma intersecção das nossas ambições”,
afirmou Satya Nadella, CEO da Microsoft, no ano passado. Para ele, a
tecnologia permite “dar razão a toda esta grande quantidade de dados e
converter isso em inteligência”.
A empresa integra um grupo formado por gigantes da tecnologia como
Amazon, DeepMind, Google, Facebook e IBM, que se uniu para discutir
avanços na área. O assunto já entrou no radar da Casa Branca, sede do
governo dos Estados Unidos, que elaborou um relatório sobre o tema. "A
inteligência artificial pode ser um motor de crescimento econômico e
progresso social, se indústria, sociedade civil, governo e o público
trabalharem juntos para apoiar o desenvolvimento da tecnologia, com
atenção a seu potencial e para controlar seus riscos", afirma o governo
americano por meio do documento.
Grupo do contra: mais perigos que avanços
Por outro lado, a Microsoft lidera o coro dos descontentes. “Eu estou
no campo dos que estão preocupados com super inteligência. Primeiro, as
máquinas farão um monte de trabalhos para a gente e não serão super
inteligentes. Pode ser positivo se nós controlarmos isso bem. Umas
décadas depois, entretanto, essa inteligência será forte o suficiente
para se tornar uma preocupação. Eu concordo com Musk e outros nisso e
não entendo por que as pessoas não estão preocupadas”, afirmou Bill
Gates, ainda em 2015.
Ele não está sozinho. Também concordam com Musk outras personalidades
do mundo das ciências e das artes, desde o ator Morgan Freeman até Jaan
Tallinn, cofundador do Skype, e o físico Stephen Hawkings, que juntas
fundaram há dois anos o Instituto Futuro da Vida. Depois de receber uma
doação de US$ 10 milhões do dono da Tesla, a organização começou a
financiar iniciativas de pesquisa sobre inteligência artificial. Até
agora, já investiu US$ 5,1 milhões em 36 projetos. A mais vultuosa delas
custou US$ 1,5 milhão: é a instalação na Universidade de Oxford do
Centro de Pesquisa Estratégica em Inteligência Artificial, que vai se
dedicar a formular, analisar e testar políticas de abordagem da nova
tecnologia.
Grupo dos apocalípticos: risco de catástrofe?
Tornar positivo o impacto da inteligência artificial sobre humanos é o
objetivo de ao menos oito entidades internacionais. Algumas delas levam
no nome o tom apocalíptico da abordagem. Por exemplo: Instituto do
Futuro da Humanidade, da Universidade de Oxford, e a organização sem
fins lucrativos Instituto do Risco Global Catastrófico.
A mais nova delas é o Fundo de Governança e Ética da Inteligência
Artificial, que teve sua criação anunciada na semana passada pelos
fundadores de eBay e LinkedIn, além de instituição de peso como o
laboratório de mídia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT,
na sigla em inglês), a Universidade de Harvard e a Knight Foundation.
O fundo nasce com US$ 27 milhões e uma ideia fixa. “A tomada de decisão
da inteligência artificial pode influenciar nosso mundo – educação,
transporte, cuidados médicos, justiça criminal e economia – ainda que os
dados e os códigos por trás dessas decisões sejam invisíveis”, diz Reid
Hoffman, fundador do LinkedIn. “Como especialistas em tecnologia, eu
estou impressionado com a incrível velocidade de desenvolvimento. Como
filantropo, eu estou ansioso para garantir que considerações éticas e os
impactos humanos dessas tecnologias não estejam sendo esquecidas”, diz
Pierra Omidyar, fundador do eBay.
Perigo mora ao lado
O pessoal do fundo faz perguntas de difícil resposta (“Que tipos de
controles nós precisamos para minimizar o risco da inteligência
artificial à sociedade e maximizar seus benefícios?”). Alguns até tentam
indicar uma possível solução. “Desde que os algoritmos têm pais e esses
pais têm valores que incutirão em sua descendência algorítmica, nós
queremos influenciar o que está por vir garantindo um comportamento
ético e uma governança que inclua o interesse das comunidades que serão
afetadas”, diz Alberto Ibergüen, presidente da Knight Foundation.
O diretor do MIT Media Lab, Joi Ito, vai direto ao ponto: “Um dos
desafios mais críticos é como nós garantiremos que as máquinas que
‘treinamos’ não perpetuem e amplifiquem os vieses humanos que assolam a
sociedade”. O medo, verbalizado pelo Instituto do Futuro da Vida, é que
alguém crie uma inteligência artificial programada para algo devastador.
Algo como armas automáticas, ou que um sistema seja feito para promover
algo benéfico mas acabe adotando métodos inescrupulosos para atingir
seu objetivo. A falta de consciência estaria na gênese da má avaliação.
A sociedade já lida com exemplos de como criações tecnológicas não só
reproduzem comportamentos preconceitos de seus desenvolvedores, mas
podem acabar machucando as pessoas. O Google já teve de pedir desculpas
por seu aplicativo de fotos, o Google Photos, dar uma foto de um casal
de negros a legenda “gorilas”. Um diretor do Google atribuiu o erro à
inteligência artificial responsável por "aprender" a reconhecer lugares,
pessoas e objetos nas fotografias.
Fonte: G1 Tecnologia
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