Ferramentas de IoT podem ser usadas como armas cibernéticas, alertam especialistas
Da Redação
13/06/2017 - 10h37
Pesquisadores afirmam que a garantia de
segurança do cidadão significa também a garantia de segurança do Estado,
que é estratégica
Em tempos de Internet das Coisas, o mundo se vê diante de
um cenário de aumento progressivo da conectividade de pessoas e
máquinas. Para debater potenciais e riscos ligados a esse
desenvolvimento tecnológico, o Ministério da Ciência, Tecnologia,
Inovações e Comunicações (MCTIC) reuniu especialistas para discutir os
desafios da segurança cibernética no contexto da Estratégia Digital
Brasileira (EDB). A questão pautou a primeira sessão do seminário
Confiança no Ambiente Digital, realizado na quinta-feira, 8, em
Brasília.
A diretora de Políticas e Programas Setoriais em
Tecnologia da Informação e Comunicações do MCTIC, Miriam Wimmer, propôs
um debate sobre Internet das Coisas (IoT), seus caminhos e possíveis
implicações. "Como devem ser distribuídas as responsabilidades pela
defesa cibernética? Em que medida preocupações relativas à privacidade e
à segurança podem frear a proliferação de dispositivos conectados? Como
iniciativas no campo de pesquisa e desenvolvimento podem contribuir
para superar os desafios tecnológicos e aumentar a autonomia nacional
nesse campo?", questionou.
Para o diretor-executivo da GridVortex Systems, Jonny
Doin, todos os processos funcionais da sociedade devem passar pela IoT,
inexoravelmente, por meio de dispositivos ligados ao corpo de cada
pessoa e a seu entorno, como carros, eletrodomésticos e infraestrutura
de cidades inteligentes. "As novas doutrinas de guerra cibernética
tratam esses dispositivos como armas", alertou. "Isso está acontecendo
neste momento. Estamos sendo atacados diariamente. E a garantia de
segurança do cidadão significa também a garantia de segurança do Estado,
que, portanto, é estratégica. Precisamos fazer com que esse processo
tecnológico, eminentemente civil e de mercado, acrescente uma camada
mínima de requisitos de cuidado, para que esses dispositivos sejam menos
suscetíveis a se transformarem em armas efetivas."
Segundo Doin, governo e indústria dividem a
responsabilidade de evitar que as ferramentas de IoT se transformem em
armas nocivas. "Nós da iniciativa privada estamos sendo chamados pela
oportunidade de sermos players dessas novas infraestruturas. Assim,
estudamos continuamente os riscos do negócio envolvidos", explicou. "E
há um ponto de convergência bastante fácil de ser colocado, que é o de
se exigir que os dispositivos desempenhem as suas funções e, caso sejam
atacados, se desconectem do processo. Dois semáforos não podem ficar
verdes ao mesmo tempo, jamais. Ou seja, a garantia funcional dessas
coisas deve ser mais importante, colocada como requisito essencial."
Ataques DDoS
O pesquisador Sérgio Luiz Ribeiro, do Centro de Pesquisa e
Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD), reforçou o caminho sem
volta da massificação das tecnologias e a abertura de portas para a
sociedade. "Dispositivos ainda não concebidos ou mesmo outros já
existentes no mercado e inseridos no mundo real, como smartphones,
precisam ser pensados com mais segurança", avaliou. "Esses últimos
ataques advieram não só de dispositivos de grande porte, mas também de
pequenos", comentou, ao recordar "a primeira invasão em massa promovida
por uma rede de IoT", em 2016, via sistemas de vigilância, como câmeras e
aparelhos de gravação.
De acordo com ele, esses ataques de negação de serviço
distribuído (DDoS, na sigla em inglês), técnica que gera grande volume
de tráfego, têm ocasionado danos substanciais a empresas de porte, como o
Yahoo, com perda temporária de disponibilidade de internet. "Uma ameaça
enorme está surgindo e, se a gente não controlar e não tiver uma base
mínima de legislação que garanta tanto a segurança quanto a privacidade,
não vai ser possível que essa massificação ofereça um bom serviço para
todos", previu. "Ataques vão ocorrer quando forem colocados
dispositivos. Resta a nós minimizar impactos."
O diretor de Assuntos Governamentais da Cisco, Giuseppe
Marrara, destacou que o aumento do número de dispositivos da Internet
das Coisas deve vir acompanhado pela digitalização da economia, com a
transformação de negócios hoje em processo analógico e manual. "Isso
aumenta a superfície de ataque", afirmou. "Quanto maior a
infraestrutura, maiores os caminhos que existem para que ela seja
atacada e maior o grau de suscetibilidade."
Na visão de Marrara, a simplicidade computacional de
equipamentos de IoT pode torná-los incapazes de se defender. "Portanto, a
rede passa a ter o papel de fazer a defesa daquele dispositivo",
esclareceu. "A rede tem que entender, ainda ali, no primeiro setor de
comunicação, que, se atrás dela só tem sensor de agricultura e alguém
está tentando comprar um livro na Amazon, algo está errado. Então, é
papel dela corrigir anomalias. O usuário só vai de fato abraçar a
tecnologia e usá-la quando tiver confiança de que é uma transação
segura. Afinal, nós, como humanos, tememos tudo aquilo que
desconhecemos."
O engenheiro militar Alexandre Cabral Godinho, do Centro
de Defesa Cibernética do Exército, associou a massificação das
tecnologias à "avidez do público por consumir tecnologia, nem sempre
preocupado com a segurança". Para ele, governo e indústria têm que se
preparar cada vez mais para ataques por meio de dispositivos, sistemas
de vigilância ou mesmo roteadores domésticos, que abriram caminho para
DDoS na Alemanha e na Rússia.
Contribuição da ciência
O presidente da Sociedade Brasileira de Computação (SBC),
Lisandro Granville, considera que o país esteja razoavelmente organizado
do ponto de vista de pesquisa científica voltada à segurança da
informação. "Temos trabalhos reconhecidos internacionalmente, embora nem
sempre isso se traduza em benefícios para a sociedade", ponderou. "Mas,
ainda que a gente esteja bem munido de recursos humanos na academia
para levar à frente projetos em nível internacional, existem espaços
importantes a serem observados, como uma maior interação com o exterior e
a indústria."
Na opinião de Granville, a comunidade científica
brasileira pode ampliar seu fluxo de cooperação com o resto do mundo.
"Isso já se dá de forma orgânica, hoje, em computação, porque é
dificilmente imaginável avançar cientificamente sem parceiros
internacionais. Mas é importante também que haja indução. E felizmente a
gente tem encontrado projetos e ações da Sepin [Secretaria de Política
de Informática do MCTIC]. Essas parcerias fazem com que a academia local
tenha contato com problemas internacionais, porque eles também podem
ser problemas nossos. Da mesma forma, a gente tem peculiaridades
brasileiras que precisam ser tratadas domesticamente, porque só nós
conhecemos essas peculiaridades."
Granville enxerga a IoT como eixo para reverter um quadro
crônico da ciência brasileira. "Outra parte dessa equação é permitir que
essa academia interaja com a indústria e vice-versa, para tentar
diminuir o já tradicional gap entre os setores. O conhecimento que se
tem nas universidades não raramente se transforma em artigos científicos
que terminam em bibliotecas virtuais acessadas por pesquisadores. É um
sistema que se autoalimenta, mas não necessariamente se transforma em
valor para a sociedade. E talvez este contexto de Internet das Coisas
seja uma oportunidade para se fazer isso, porque existe conhecimento na
academia que pode beneficiar o mercado."
O professor Jorge Fernandes, do Departamento de Ciência da
Computação da Universidade de Brasília (UnB), estabeleceu uma analogia
entre a segurança cibernética e o cenário de saúde pública, sujeito a
endemias, epidemias e pandemias. "Saúde é um problema que envolve não só
o Estado, mas também a sociedade. Então, nos dois casos, a resiliência é
construída não só dentro do Estado, como responsável pelas estruturas
de controle e normatização, mas com apoio social – e nós temos um
problema no Brasil que é a desigualdade educacional. O grande desafio,
de fato, está em educar a sociedade."
Fonte: IDGNow!
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