Projetar
aparelhos com defeitos e peças pouco duráveis para que o consumidor
tenha de comprar novamente. É a obsolescência programada, uma prática
que nos leva a um beco sem saída
Joseba Elola
Lixão de Agbogbloshie em Accra (Gana), aonde vão parar os resíduos da Europa e dos Estados UnidosOlivier HosletEFE
A frase foi publicada em 1928 na Printer’s Ink, revista do setor publicitário
norte-americano: “Um artigo que não estraga é uma tragédia para os
negócios.” Para que vender menos se você pode vender mais projetando
produtos com um defeito incorporado? Por que não abandonar esse afã
romântico de fabricar produtos bem feitos, consistentes, duradouros, e
ser logo prático? Não será melhor para o business fazer com que o cliente tenha de abrir a carteira mais vezes? Essa é história de uma ideia que ganhou força como salvação dinamizadora nos anos da Grande Depressão, transformou-se num mantra da sociedade de consumo
– comprar, usar, jogar fora, voltar a comprar – e se tornou, já na
atualidade, uma séria ameaça ao meio ambiente. É uma história escrita
aos poucos, capítulo por capítulo. O último e mais importante deles é o
destaque que a questão ganhou nos debates da Europa, sinal de que existe
uma crescente conscientização: em 4 de julho, o Parlamento Europeu
aprovou (por 622 votos a favor e 32 contra) o Relatório sobre Produtos com Uma Vida Útil Mais Longa: Vantagens para os Consumidores e as Empresas, pedindo que a Comissão Europeia adote medidas. Não só isso. A França, país com a legislação mais dura da Europa
contra a obsolescência programada, acaba de registrar a primeira
denúncia de um coletivo de consumidores contra os fabricantes de
impressoras. O fato ocorreu em 18 de setembro: a associação Halte à l'
Obsolescence Programmée (HOP, Contra a Obsolescência Programada) acusou
marcas como Epson, HP, Canon e Brother de práticas destinadas a reduzir
deliberadamente a vida útil de impressoras e cartuchos. O truque não é novo. Começou a ser usado no final do século XIX na
indústria têxtil (quando os fabricantes começaram a utilizar mais amido e
menos algodão) e se consolidou em 1924, quando General Electric, Osram e
Phillips se reuniram na Suíça e decidiram limitar a vida útil das
lâmpadas a 1.000 horas, tal como aponta o festejado documentário
espanhol Comprar, Tirar, Comprar (“comprar, jogar fora, comprar”), de Cosima Dannoritzer. E assim foi assinado o atestado de óbito da durabilidade.
“Hoje, os investimentos em pesquisa e
desenvolvimento são usados para reduzir a durabilidade do que
compramos”, diz o especialista Benito Muros
Até então, as lâmpadas duravam mais. Como a que brilha
ininterruptamente desde 1901 na central dos Bombeiros de Livermore, na
Califórnia. De filamento grosso e intensidade menor que a de suas
sucessoras (o que impede o alto aquecimento), essa lâmpada foi concebida
para perdurar. E continua lá, brilhando, mostrando que a obsolescência
programada está longe de ser um mito. Desde a sensação causada nos anos trinta pelas meias de náilon Du
Pont, que não rasgavam, até o telefone inteligente que fica burro sem
razão aparente – e só um ano e meio depois de ser adquirido –, muita
água passou debaixo da ponte. A obsolescência programada (OP) foi
aprimorada. E a intenção de fraude por parte do fabricante não é algo
fácil de demonstrar. Quem se expressa de forma tão contundente é Benito
Muros, um ex-piloto de 56 anos que há anos denuncia a OP. Presidente da Fundação Energia e Inovação Sustentável Sem Obsolescência Programada (Feniss), ele afirma que a OP está presente em todos os dispositivos eletrônicos que compramos, “até mesmo nos carros”.
Os consumidores franceses realizaram a primeira denúncia contra várias marcas de impressoras
Muros lidera uma empresa que desenvolve lâmpadas, semáforos e
projetos de iluminação pública para Prefeituras da Espanha, conta que
hoje é possível observar muitas formas de OP no mercado: dispositivos
com carcaças que não permitem a dissipação do calor, e cujo aquecimento gera falhas prematuras;
componentes como os condensadores eletrolíticos, cujas dimensões
determinarão a vida do produto (perdem líquido com as horas de uso;
quanto menor for a capacidade de armazenamento de líquido eletrolítico,
menos vai durar); baterias que não podem ser retiradas (como foi o caso
do iPhone) e que obrigam o usuário a comprar um novo aparelho; chips que
agem como contadores e que estão programados para que o sistema pare de
funcionar após certo número de utilizações, como ocorreu com algumas
impressoras (o consumidor que ousar tentar consertar uma logo escutará
que é mais barato comprar outra). Muros, que diz ser alvo de campanhas de difamação na imprensa por se
opor à OP – e que fabricou uma lâmpada que foi objeto de controvérsia, –
afirma inclusive que atualizações enviadas para os nossos smartphones escondem uma mudança de software que os torna mais lentos.
A lâmpada acesa mais antiga do mundo, numa central dos Bombeiros de Livermore, na CalifórniaJohn G. Mabanglo
“Eles te enviam uma espécie de vírus que serve para preparar o telefone para o seu final”, diz. Outro aparelho jogado no lixo, e outro resíduo eletrônico
que, mais cedo ou mais tarde, vai parar nos tóxicos (e sinistros)
lixões que o mundo rico alimenta em lugares remotos, como a África. Cerca de 215.000 toneladas de aparelhos eletrônicos, procedentes
sobretudo dos Estados Unidos e da Europa, desembarcam todo ano em Gana,
segundo a Motherboard, uma plataforma multimídia de longa trajetória
sobre trabalhos de pesquisa. Acabam gerando 129.000 toneladas de resíduos em lugares como Agbogbloshie, um dos maiores lixões tecnológicos do mundo, situado em Accra, a capital do país.
“Somos os responsáveis pelo nosso consumo. Não podemos seguir assim”, diz a cientista Mari Lundström
A indústria de tecnologia produz, sozinha, 41 milhões de toneladas de
resíduos eletrônicos por ano, segundo uma pesquisa do Programa das
Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). Entre 60% e 90% desses
produtos caem nas mãos de quadrilhas, que os descarregam ou
comercializam ilegalmente. Além de Gana, países como Índia e Paquistão
são importantes destinos de televisores, celulares e aparelhos de som
descartados com a chegada das liquidações, porque não somos bobos, e
porque uma semana de preços supostamente loucos é uma oportunidade que
não se pode desperdiçar. Tudo pelo último modelo. Ainda assim, a prática tem os seus defensores. Eles dizem que uma
obsolescência programada controlada, sem abusos excessivos, é a fórmula
para que o mundo continue funcionando como até agora. E uma fonte de
criação de emprego. Além disso, o avanço tecnológico traz soluções mais ecológicas e eficientes, como poderia ser o caso dos carros elétricos. Portanto, a OP poderia ter sentido, argumentam seus partidários. O debate está aberto. E dele também participam aqueles que dizem que
esse negócio de obsolescência programada é uma teoria da conspiração.
Basta um passeio pelo Twitter para ver mais argumentos. Uns dizem que o
verdadeiro problema não são as marcas, mas os consumidores: queremos
produtos baratos para usar e jogar fora, e não estamos dispostos a pagar
o que custariam se realmente fossem de qualidade (e, portanto, mais
caros). Nessa mesma linha se manifesta o diretor geral da Associação Nacional
de Fabricantes de Eletrodomésticos (Anfel), da Espanha, que reúne as
marcas de linha branca (geladeiras, lava-roupa, lava-louça, etc). Este
jornal tentou realizar uma entrevista com algum diretor da Anfel, que só
aceitou responder às perguntas por e-mail. Após afirmar que não há
dados embasando a ideia de que os eletrodomésticos duravam mais em
meados do século passado do que agora, e de qualificar a prática da OP
como “deplorável”, Alberto Zapatero, diretor geral da Anfel, escreve:
“Devemos levar em conta que os consumidores não só jogam fora os
produtos que deixaram de funcionar, mas também o fazem por outros
motivos, por exemplo quando um aparelho deixa de cumprir com suas
expectativas por razões técnicas, regulatórias ou econômicas (caso de
televisores não aptos para a transmissão digital), além do desejo dos
consumidores de adquirir um novo modelo por questões de mudanças de
funcionalidade, design e serviços.” Não bastasse o consumismo desenfreado dos cidadãos ocidentais, existe
também a contemporânea impossibilidade de consertar. E os dados indicam
que o consumidor estaria disposto a reparar os produtos, se pudesse:
77% dos europeus prefeririam o conserto a uma nova compra, segundo o
Eurobarômetro de 2014. “A sociedade dos resíduos não pode seguir assim.
Estamos perante um modelo econômico superado”, afirma de Bruxela, por
telefone, Pascal Durand, deputado verde europeu que liderou a iniciativa
apresentada pelo Parlamento Europeu no final de julho. A cifra de consumidores de produtos de tecnologia aumenta a cada ano. Novas classes médias de países como China e Índia
se incorporam ao padrão de compra dos países mais desenvolvidos. Mais
celulares, mais computadores, mais eletrodomésticos. Primeiro para o
carrinho de compras, depois para o lixo. E mais extração de metais para
produzi-los. Matérias-primas que não são ilimitadas. Ao mesmo tempo, quanto mais curta é a vida dos dispositivos que
compramos (veja os celulares, cuja expectativa de vida oscila entre um e
dois anos, segundo os estudos europeus), maior é o volume de resíduos
gerados. Jogar fora aparelhos novos que poderiam ser consertados na Europa,
enviando-os a lixões distantes em barcos que contaminam águas, para, ao
mesmo tempo, comprar aparelhos fabricados em lugares distantes e que
chegam em barcos que contaminam de novo. “Cedo ou tarde, isso vai
acabar”, diz Durand. Essa é uma das reflexões de uma proposta que foi batizada como
“economia circular” e que ganha força nos fóruns europeus e globais. A
ideia é simples: ao fabricar um bem, devemos levar em conta o resíduo
que ele vai gerar para que este seja reutilizável, se possível
totalmente. Desse modo, em vez de seguir o paradigma da economia linear
(produzo, utilizo, jogo fora), passaríamos ao “produzo, utilizo,
reutilizo”. E, se possível, conserto. Legislar nesse sentido, portanto, significaria fazer com que as
marcas aumentem os prazos de garantia; incentivar a possibilidade de
reparação dos produtos em qualquer loja, não só nos serviços
autorizados; que as marcas projetem artefatos que permitam a extração de
peças, componentes, baterias; reduzir impostos às marcas que adotem
essas medidas e aos artesãos que a elas se dediquem; perseguir e multar a
obsolescência programada intencional; revelar a OP informática. A
iniciativa apresentada no Parlamento Europeu vai nessa linha. A Comissão deverá dar uma resposta legislativa antes de julho de 2018. Enquanto isso, países como a Finlândia arregaçam as mangas. O país
escandinavo já conta com um plano para fazer a transição rumo à economia
circular. Florescem as start-ups que procuram soluções para os resíduos que geramos, enquanto fundos são destinados para a pesquisa. A Universidade Aalto integra um projeto de colaboração transversal
que recebeu cinco milhões de euros (18,5 milhões de reais) para começar a
caminhar. Mari Lundström, professora de hidrometalurgia e corrosão,
lidera um programa que busca soluções para a reciclagem de metais. Em
entrevista pelo telefone de Estocolmo, ela explica que os celulares, os
fios elétricos e os computadores que jogamos no lixo estão repletos de
materiais úteis e valiosos. Alguns inclusive são difíceis de encontrar
no subsolo europeu; e, no entanto, jogamos tudo isso fora. Desperdiçamos
níquel, cobalto, lítio... Muitos deles são facilmente recuperáveis
através de tratamentos químicos, por exemplo. Um único telefone contém
até 40 elementos recicláveis, dos quais só reutilizamos 10, explica
Lundström. Doze empresas finlandesas que usam metais já trabalham com o
fruto das pesquisas científicas. Podemos reciclar o metal da lata de refrigerante. Mas precisamos de
20 vezes mais energia para recuperá-lo se essa lata foi queimada num
saco com lixo orgânico, explica a cientista finlandesa. Este é um dos
resultados das pesquisas do programa. Pode-se deduzir, portanto, que a
economia circular deve ser promovida pelos Governos, pesquisada pelos
docentes e assumida pelas empresas. Ok, mas também precisa dos cidadãos. “A chave da economia circular é o que cada pessoa fizer”, diz
Lundström, de forma categórica. “Não podemos continuar vivendo como
fizemos até agora. É necessária uma resposta da sociedade: somos
responsáveis por nossa forma de consumir.” Mas a economia circular também tem seus críticos. Alguns consideram
que se trata de uma mera prolongação da ideia de crescimento
sustentável, que, apesar de bem intencionada, não levou a grandes
realizações. O problema, explicam, é o crescimento. É a lógica que nos
empurra a seguir espremendo o planeta, cujos recursos são finitos. A solução não é fácil, e romper com décadas de inércia levará um
tempo. Há várias perguntas no ar. Num contexto de contínuo avanço
tecnológico, será mesmo tão difícil melhorar a durabilidade dos
produtos? Faz sentido continuar vivendo do mesmo jeito, conhecendo a
toxicidade dos resíduos gerados por nosso modo de consumo? E os Governos
não têm pensado em fazer nada a respeito?
CONSUMIDORES SE MOBILIZAM NA FRANÇA
A França é a país com a legislação mais dura da Europa na luta contra
a obsolescência programada, aprovada em 2015. As marcas que realizam a
prática podem pagar multas de até 300.000 euros (1,1 bilhão de reais). A denúncia da associação HOP apresentada em setembro, a primeira do
gênero, acusou marcas como HP, Canon e Brother de práticas voltadas a
reduzir deliberadamente a vida útil de impressoras e cartuchos; e
destacava, em particular, o caso da Epson. Este jornal solicitou entrevista com um diretor da Epson na Espanha,
mas o pedido foi negado. Um porta-voz somente escreveu esta resposta por
e-mail: “A Epson conhece a denúncia da associação HOP na França e
trabalhará com as autoridades competentes para responder de maneira
adequada e resolver o caso.” E acrescentou: “Rechaçamos totalmente a
afirmação de que nossos produtos estão programados para estragar num
período de tempo predeterminado.”
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