'Negro não tem que falar só sobre raça', defende professora
A professora
Katemari Rosa ainda se lembra de um dia em que esperava o ônibus até a
Universidade Federal de Campina Grande (PB), onde lecionava física. Já
era formada em física pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS), com mestrado em Filosofia da Ciência na Universidade Federal da
Bahia (UFBA) e doutorado em Ensino de Ciências na Universidade
Columbia, nos EUA. No ponto do ônibus, aguardavam alunos, técnicos e
funcionários da universidade. Ela avisou a uma moça que o transporte
estava chegando, e a moça perguntou o que ela fazia. Katemari respondeu
que era professora.
"Quando eu disse que era professora, ela perguntou: 'Professora de estudos africanos, não é?'." Katemari é negra. "Ela não só demorou a acreditar que eu era professora universitária, mas também, quando eu disse o que fazia, imediatamente me colocou no meu lugar. Uma mulher como eu só podia ser, claro, professora de estudos africanos", analisa, alertando para uma forma de racismo que muitas vezes a sociedade demora a identificar: reservar ao negro apenas o lugar para falar de africanidades, negritude, África, preconceito e temáticas afins.
"Digo aos estudantes: o negro não tem que ir para os espaços para falar só sobre raça. Acho ótimo falar disso, mas penso que é preciso ver pessoas negras falando de tudo, matemática, português, direito, ciência, física de partículas. Quando a menina disse: 'você é professora de estudos africanos', tenho certeza que não falou por mal nem com intenção de ofender ou ser racista. Falou porque é a construção que a gente tem, é essa inferência. Se está ali como professora, só pode estar falando de africanidades", analisa.
Katemari se incomodou com a pergunta da moça, mas acabou não respondendo. Era como se uma mulher negra não pudesse fazer o que ela fazia. "Física? Não é um espaço pra mim, o negro pensa. Várias vezes me confundiram", conta.
Ao longo da vida acadêmica, o incômodo apareceu outras vezes, como num dia em que estava sentada sozinha na mesa de sua sala, com seu nome escrito na porta. Uma moça entrou e pediu para chamar a professora Katemari. "De novo, mesmo meu nome estando na porta, foi difícil ela acreditar que a professora era eu."
"Lembro que houve grande crítica por pedirem esse dado. E era algo interno, não um dado público, então, era difícil saber", afirma.
Banco de dados de cientistas negros
Especialista em eletromagnetismo e filosofia das ciências, Katemari incorporou de vez o tema da questão racial a seus interesses e conduz, desde 2015, o projeto de história oral "Contando Nossa História: Negras e Negros nas Ciências, Tecnologias e Engenharias no Brasil".Financiada pelo CNPq, a iniciativa pretende recuperar trajetórias e criar um inédito banco de dados aberto ao público com a história desses cientistas. "A gente não tinha isso, não se falava de negros na física. Aqui em Salvador, a cidade mais negra do país, a gente não falava sobre isso", afirma.
Ao saber do projeto, estudantes de diferentes partes do país a procuraram, interessados em participar. No Tocantins, uma moça pediu que orientasse seu trabalho sobre biólogas negras, diante da dificuldade de achar alguém que se interessasse em acompanhá-la. Um desinteresse que, como no caso do estranhamento ao ver uma mulher negra professora, é sinal do que Katemari, hoje, aos 39 anos, identifica como racismo estrutural, mas que muitas vezes demorou a reconhecer.
'Decifrar o quebra-cabeças'
Oriunda de uma família de classe média baixa, aluna da escola pública, criada só pela mãe, Katemari é professora-adjunta do Instituto de Física da UFBA e tornou-se um nome de referência contra a invisibilidade de negros na pesquisa acadêmica.Em janeiro de 2017, foi uma das organizadoras do 1º Encontro de Negras e Negros na Física, dentro dos debates do Simpósio Nacional de Ensino de Física, ocorrido no campus da USP em São Carlos.
A professora também participou do Diálogo Elas nas Exatas, realizado no Rio em março deste ano por organizações como Fundo ELAS, Instituto Unibanco, Fundação Carlos Chagas e ONU Mulheres. É uma das pesquisadoras chamadas pelo CNPq a escrever, para a próxima edição do projeto Pioneiras das Ciências, verbetes sobre cientistas negras.
Outras iniciativas nesse sentido vêm sendo conduzidas pela Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN), criada em 2000 com o intuito de organizar encontros e publicações com foco em pesquisas produzidas por negros ou voltadas para a temática.
"A gente tem que falar da representatividade negra e falar de outras coisas. Meu próximo artigo acadêmico será sobre eletromagnetismo", afirma ela, que leciona sobre como compreender conceitos da física à luz da filosofia.
Apaixonada por física - ("Apesar das aulas terríveis do ensino médio", brinca -, Katemari diz que se interessou pela área desde criança, quando passava horas observando o céu e dizia que seria astrofísica. A escola técnica onde estudou, hoje IFRS (Instituto Federal do Rio Grande do Sul), ficava ao lado do planetário da UFRGS. Ela perdeu a conta de a quantas sessões assistiu.
"Física é emocionante. Eu gostava de entender as coisas acontecendo, gostava de quando eu conseguia decifrar o quebra-cabeças. Minha conexão com a física é pelo desafio", afirma.
Em sala de aula, uma de suas preocupações é trabalhar no que hoje se chama de "descolonização" do ensino, com uma proposta que traga novos conceitos, saberes e escolas. Nessa batalha, Katemari diz que é preciso pensar numa outra ordem para fazer diferente.
"Temos que produzir uma ciência que seja para viver de forma mais harmônica com a natureza, que não seja de exploração. A gente desconsidera conhecimentos produzidos pela Ásia e pela África. Não quero ensinar uma ciência que coloque a centralidade do conhecimento como sendo apenas feito por europeus e homens."
E a astrofísica, pergunta a BBC Brasil? Katemari achou chatíssima. Preferiu o eletromagnetismo, a filosofia e a busca por outras estrelas - negros e negras que brilham nas ciências.
Fonte: BBC
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