Alemanha enfrenta dilema de
proteger meio ambiente ou indústria do motor
Juan
Palop EFE Berlim
7
jun 2018
EFE
/CLEMENS BILAN
O
escândalo da fraude nas emissões de motores a diesel deixou o governo da
Alemanha diante de uma incômoda dúvida: continuar se apresentando como símbolo
da luta contra a mudança climática ou manter a proteção aos grandes
exportadores de sua indústria automobilística.
Berlim
pisa em ovos neste tema desde que veio à tona o escândalo protagonizado pela
Volkswagen em 2015, para não perder sua liderança em questões ambientais e, ao
mesmo tempo, não prejudicar o setor automotivo, que emprega 800 mil pessoas e é
responsável por 24% das exportações alemãs.
Grupos
ambientalistas e a oposição acusam de inação a grande coalizão de conservadores
e social-democratas que está no governo desde 2013, e exigem medidas urgentes
para reduzir as emissões dos veículos e que os fabricantes assumam seus custos.
"O
comportamento do governo durante e depois do escândalo das emissões parece ser
o de proteger a indústria automobilística de tudo o que signifique enfrentar
responsabilidades financeiras", afirmou em um encontro com meios de
comunicação internacionais Jens Hilgenberg, analista do coletivo ecologista
BUND.
Em sua
opinião - e na de muitos ecologistas -, o governo alemão poderia tomar decisões
que teriam um claro efeito para reduzir a poluição, especialmente depois que a
Comissão Europeia advertiu Berlim porque 80 cidades do país superam os limites
de poluição atmosférica.
Entre
estas opções, destaca-se a de estabelecer zonas de baixas emissões, áreas -
principalmente urbanas - nas quais só poderiam circular os veículos menos
contaminantes, os que obtivessem o denominado "distintivo azul", o
que impediria milhões de automóveis a diesel de trafegar dentro destas áreas.
Mas tanto
o atual ministro do Transporte, o conservador Andreas Scheuer, como a ministra
de Meio Ambiente, a social-democrata Svenja Schulze, se mostraram contra esta
proposta, alegando que afetaria negativamente muitos cidadãos e negócios.
"Não
consigo entender", declarou Hilgenberg, que considera que os
"distintivos azuis" para os veículos limpos seria uma medida
"razoável", viável e uniforme em todo o país, além de facilitar a
revisão do exterior.
O
governo, por sua vez, se mostrou a favor de consertar os veículos a diesel
afetados pelo escândalo da manipulação de emissões, embora não tenha detalhado
como o faria.
A fraude
em alguns carros pode ser consertada com uma atualização do software do motor,
mas em outros seria necessária uma substituição de componentes, uma atuação que
a própria chanceler alemã Angela Merkel classificou como "intensiva em
custo".
Scheuer
anunciou nesta semana que até o final do ano os fabricantes terão que realizar
todas as atualizações de software, mas ainda não foi decidido o que fazer com
os veículos que precisam de mudanças de hardware, evidenciando as reticências
do governo alemão.
Schulze
sugeriu recentemente um recall escalonado dos veículos que precisam de uma
substituição de componentes para cumprir os limites de emissões, começando
pelos das cidades mais poluídas.
Em meio a
essas discussões, a Justiça interveio: em fevereiro o Tribunal Superior do Disputador
Administrativo abriu a porta para que as cidades, por razões ambientais,
proíbam a circulação dos veículos mais poluentes, uma sentença que o governo
tentava evitar.
Hamburgo
foi pioneira neste sentido e, a partir desta sexta-feira, proibirá todos os
veículos a diesel que não cumprirem o padrão comunitário "Euro 6" de
trafegar por duas ruas - um primeiro teste que Hilgenberg aplaude, embora chame
de "simbólico".
Além
disso, o governo alemão aprovou medidas a médio e longo prazos para reduzir a
poluição, incluindo algumas que lhe trazem grandes gastos.
Neste
ano, o governo vai dedicar 750 milhões de euros para promover o uso do ônibus
público elétrico, digitalizar o tráfego e reduzir as emissões dos motores a
diesel no transporte urbano através de um fundo para o qual o setor automotivo
deve contribuir com 250 milhões de euros.
Fonte: EFE
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