'Direito de consertar': por que cresce a pressão por eletrodomésticos mais duráveis e fáceis de reparar
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'Direito de consertar': por que cresce a pressão por eletrodomésticos mais duráveis e fáceis de reparar
14/01/2018
BBC
Direito de imagemGetty ImagesComprar um eletrodoméstico novo para substituir o
que quebrou gera liberação de gases do efeito estufa durante o processo
de produção
É frustrante. Você
compra um novo eletrodoméstico e, logo depois da garantia expirar, ele
quebra. Você não consegue consertar e também não encontra ninguém que
consiga fazer o serviço por um preço decente.
Então, você é
praticamente forçado a comprar outro novo, enquanto o objeto se junta à
montanha global de lixo. Isso acaba dando combustível à mudança climática, devido ao consumo de recursos e à liberação de gases do efeito estufa durante o processo de produção do novo eletrodoméstico. Mas
em breve isso deve mudar, pelo menos na União Europeia e em partes dos
Estados Unidos. Em breve, seus cidadãos devem ganhar o "direito de
consertar". Na União Europeia, ministros para meio ambiente estão
introduzindo normas para forçar fabricantes a produzir bens que durem
mais e que sejam mais fáceis de reparar. As propostas englobam artigos
para iluminação, televisões e eletrodomésticos de grande porte (como
geladeiras, fogões, lava-louças e máquina de lavar). Já nos
Estados Unidos, pelo menos 18 Estados estão considerando adotar leis
similares, em uma enorme reação contra produtos que não oferecem
suprimento de peças separadas ou que não podem ser desmembrados porque
suas partes são coladas - se uma pequena parte quebra, você não tem
outra opção a não ser comprar o produto inteiro de novo.
Os
planos europeus e americanos são complexos e controversos. Os
fabricantes dizem que as regras propostas sobre conserto de produtos são
muito estritas e que inibirão inovação. Direito de imagemGetty Images
Fabricantes podem ter que fazer alterações na produção dos eletrodomésticos
Já no Brasil, não há propostas para facilitar o
conserto de eletrodomésticos. De qualquer forma, o Código de Defesa do
Consumidor já estabelece que produtos que saem de linha devem manter
peças de reposição no mercado por um prazo razoável - porém, não diz
qual seria a duração desse prazo razoável. Além disso, há um
projeto de lei na Câmara para proibir a obsolescência programada - a
fabricação de produtos que duram menos, para forçar que os consumidores
tenham que comprar outros novos. "No Brasil, a questão do
conserto tem mais a ver com a obsolescência programada. Temos um grande
problema com isso. Muitos produtos, como eletrodomésticos e celulares,
são feitos para durarem menos e estimular o consumo ", afirma Livia
Coelho, advogada e representante da Proteste, organização de defesa do
consumidor. "Há dois fatores que incidem (na obsolescência
programada). Primeiro, a empresa não disponibiliza peças de reposição.
Segundo, o consumidor tem o impulso de adquirir um produto novo. Isso
acaba contribuindo com problemas ligados ao meio ambiente", continua
Coelho.
Como o 'direito de consertar' vai ajudar o meio ambiente?
Na
Europa, consumidores fizeram campanhas para reclamar que a União
Europeia permitiu que empresas mantivessem controle sobre o processo de
reparo dos eletrodomésticos, ao insistirem que alguns produtos só
poderiam ser consertados por determinados profissionais - a assistência
técnica autorizada. A Agência Europeia do Ambiente, por exemplo,
afirmou: "Isso faz com que as pessoas que fazem consertos de forma
independente tenham acesso restrito a peças e informações - e isso
limita o escopo e a disponibilidade dos serviços de reparo". O órgão
também quer que outros produtos, como smartphones e impressoras, sejam
incluídas nas novas regras. Grupos ambientalistas dizem que as
novas propostas de legislação da Europa e dos Estados Unidos representam
um progresso na redução das emissões de carbono e no uso mais racional
dos recursos naturais. Libby Peake, do grupo Green Alliance,
afirmou à BBC News: "As novas regras são um progresso definitivo. Nós
achamos que poderia ser melhor, mas é uma boa notícia que pelo menos os
políticos estejam despertando para um tema que a sociedade recolhece
como um problema há muito tempo. As novas regras vão beneficiar o meio
ambiente e economizar recursos". Getty Images
O que motivou as iniciativas de mudança na Europa e nos Estados Unidos?
As mudanças foram impulsionadas por algumas estatísticas: -
Um estudo mostrou que, entre 2004 e 2012, a proporção de grandes
eletrodomésticos que deixaram de funcionar dentro de 5 anos aumentou de
3,5% para 8,3%. - Uma análise de máquinas de lavar jogadas em um centro de reciclagem mostrou que mais de 10% tinham menos de cinco anos. -
Outro estudo estimou que, por causa do CO2 emitido no processo de
produção, uma máquina de lavar que dura bastante tempo vai gerar, ao
longo de duas décadas, 1,1 tonelada a menos de CO2 do que um modelo que
dure pouco tempo.
É melhor se desfazer de um eletrodoméstico velho e comprar um mais eficiente?
Essa
não é uma pergunta simples. Especialistas em recursos naturais explicam
que, em geral, se o seu eletrodoméstico é velho e tem uma baixíssima
eficiência energética, pode valer a pena substituí-lo por um novo modelo
que gasta menos energia. Mas, na maioria dos casos, ficar com o modelo
velho gera menos emissões do que produzir um novo. Há outro debate
sobre quão prontamente os consumidores deveriam poder consertar os
eletrodomésticos. O movimento Direito ao Conserto quer a produção de
aparelhos que possam sejam totalmente desmembrados e reparados com peças
de reposição e informações fornecidas pelos fabricantes. Alguns
fabricantes temem que o reparo feito em casa, no estilo "faça você
mesmo", possa danificar os equipamentos e potencialmente representar um
risco físico. Uma das empresas, a Digital Europe, disse: "Nós
entendemos o desejo político de integrar a eficiência energética e de
recursos, mas estamos preocupados que alguns requisitos sejam inviáveis
ou não geram nenhum valor adicional. As propostas de regulações limitam o
acesso ao mercado, se desviam das melhores práticas reconhecidas
internacionalmente e comprometem a propriedade intelectual". *Com reportagem de Roger Harrabin (@rharrabin), especialista em meio ambiente da BBC.
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