Um celular poderia durar 12 anos se sua vida não fosse encurtada de propósito
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Um celular poderia durar 12 anos se sua vida não fosse encurtada de propósito
A Espanha não tem legislação que penalize a obsolescência programada
I. R.
Usuário de um telefone da Apple, uma das empresas multadas na Itália por obsolescência programada.Pixabay
Meias que se esgarçam no primeiro uso, lâmpadas com vida útil de
apenas 1.000 horas e máquinas de lavar roupa que funcionam pouco mais de
cinco anos. A obsolescência programada afeta produtos de múltiplos
setores, entre os quais estão os têxteis, os eletrodomésticos e, também,
os smartphones, que em muitos casos ficam mais lentos e começam a falhar dois anos depois de comprados.
“No momento, absolutamente todos os fabricantes de telefones celulares adotam essa prática.
Quando o celular fica mais lento ou certos aplicativos não funcionam, o
usuário já começa a pensar que é normal", afirma Benito Muros,
presidente da Fundação Energia e Inovação Sustentável Sem Obsolescência
Programada (Feniss). Atualmente, a vida útil de um telefone, observa
ele, é de dois anos. Depois disso, é comum que eles comecem a dar
problemas e Muros explica que o reparo pode custar até 40% do que se
gastaria na compra de um novo. "Se a obsolescência programada não
existisse, um telefone celular teria uma vida útil de 12 a 15 anos",
diz. A Autoridade Garantidora da Concorrência e do Mercado da Itália
(AGCM, na sigla em italiano) impôs há duas semanas uma multa de cinco
milhões de euros (222 milhões de reais) à Samsung e outra de dez milhões à Apple
por forçarem os clientes a realizar atualizações de software que tornam
os telefones celulares mais lentos. Ambas as empresas foram acusadas
pela AGCM de adotar "práticas comerciais desleais" que causaram "avarias
graves [nos dispositivos] e reduziram significativamente seu
funcionamento, acelerando assim a sua substituição por produtos mais
novos". Essas multas representam "um começo para falar sobre obsolescência
programada", explica Enrique Martínez Pretel, membro do Conselho Geral
de Associações de Engenharia de Informática da Espanha e CEO da empresa
de especialistas em informática Evidentics. Mas esta soma "não é nada
para essas empresas": "A Apple ganhou 16,04 bilhões de euros (70 bilhões
de reais) somente no quarto trimestre de 2014, o ano em que saiu o iPhone 6, que é o dispositivo sobre o qual se impôs a multa".
Falta de legislação na Espanha
Na Espanha, o Decreto Real 110/2015, de 20 de fevereiro, relativo aos
resíduos de equipamentos elétricos e eletrônicos, inclui entre as
obrigações dos fabricantes que estes dispositivos sejam projetados e
produzidos de modo que sua vida útil seja prolongada o máximo possível. A
Comissão Europeia propõe que em 2020 a informação de durabilidade seja obrigatória para os fabricantes, de acordo com Martínez Pretel. Enquanto em países como a Itália e a França já são promulgadas leis
para a proibição total destas práticas, na Espanha não há nenhuma
legislação que penalize a obsolescência programada. Em 2016, o Partido
Socialista propôs em seu programa eleitoral "proibir e penalizar de
forma estrita as práticas de obsolescência tecnológica forçada dos
produtos por parte das empresas". A Comissão de Saúde da Câmara dos
Deputados aprovou por unanimidade, em abril de 2017, uma proposta de lei
do Grupo Parlamentar Socialista que instava o Governo do Partido
Popular a proibir a obsolescência programada.
A França foi o primeiro país europeu a introduzir medidas para
erradicar esse tipo de práticas que não podem ser mantidas porque exigem
o uso de recursos naturais finitos, geram grandes quantidades de
resíduos e uma perda econômica para o consumidor, além de ter
consequências negativas para a saúde pública e o meio ambiente",
explicou a porta-voz socialista da área de consumo, Begoña Tundidor. O Ministério para a Transição Ecológica explicou a El País
que para o Governo é essencial implementar ações que sejam promovidas e
aplicadas em toda a União Europeia. A Comissão Europeia apresentou em
dezembro de 2015 o Plano de Ação para uma economia circular na Europa,
que visa analisar as diferentes fases do ciclo de vida dos produtos.
Fontes do ministério afirmam que nesse plano "estava previsto que em
2018 se avaliasse na comunidade europeia a possibilidade de elaborar um
programa independente de testes sobre a obsolescência programada".
"Teremos que esperar os trabalhos da Comissão Europeia sobre esta
questão", argumentam. Organizações como a Feniss e a Amigos da Terra tentam conscientizar os políticos sobre a importância de acabar com esse vácuo legal.
Esta última iniciou uma campanha em 2017 para pedir ao Ministério das
Finanças uma redução do IVA sobre os serviços de reparação e de artigos
de segunda mão e de aluguel –dos atuais 21% para 10%. "Temos quase 5 mil
assinaturas e nos reuniremos em breve com os ministérios para tentar
viabilizar esta demanda", diz Alodia Pérez, responsável pelos Recursos
Naturais e Resíduos de Amigos da Terra. Pérez diz que as pessoas trocam de celular em média uma vez por ano e
que os primeiros telefones celulares tiveram uma vida útil de até seis
anos. "Vivemos na era da obsolescência programada. Não só em celulares,
mas também em móveis, calçados e eletrodomésticos. As máquinas de lavar
roupa que nossos pais tinham duravam 20 ou 30 anos e agora duram pouco
mais de sete", afirma. Ela diz que essa é uma estratégia de mercado
muito consolidada para poder continuar vendendo. O Ministério da Transição Ecológica expôs a este jornal sua
preocupação com o efeito direto dessas práticas "no aumento do volume de
resíduos gerados e no aumento no ritmo da produção desses resíduos". O
presidente da Feniss explica que "todos os anos geramos 30 bilhões de
toneladas de lixo eletrônico". Em 2025, serão 53,9 milhões de toneladas
de resíduos de produtos eletrônicos, segundo o Escritório Internacional
de Reciclagem. "Não podemos continuar consumindo como fazemos porque
daqui a 20 anos não haverá matérias-primas e vamos nos afogar em nosso
próprio lixo", conclui Muros.
Apple e Samsung negam essas práticas
A Apple foi multada há duas semanas pela Autoridade Garantidora da
Concorrência e do Mercado da Itália (AGCM) porque não informou os
usuários do iPhone 6 que a atualização iOS 10 exigia um gasto maior de
energia e poderia causar "paradas repentinas", de acordo com esse órgão.
Além disso, a Apple levou uma multa maior do que a Samsung porque não
informou corretamente os usuários sobre a vida útil das baterias de
lítio de seu telefone e alguns fatores que contribuem para a sua
deterioração. Este jornal entrou em contato com a empresa, que não divulgou uma
avaliação oficial da multa imposta pela Itália, mas afirmou que sua
posição em relação ao desempenho das baterias do iPhone é a mesma
divulgada em um comunicado em 28 de dezembro de 2017. A Apple se
desculpou depois que o Geekbench, um blog que mede as taxas de
desempenho de telefones celulares, descobriu um dado incomum: o
desempenho do iPhone caía, sem causa aparente, após um ou dois anos de
uso. "Nunca fizemos nada que intencionalmente encurtasse a vida de um
produto da Apple", disse a empresa. Mas, para responder às queixas de
clientes, anunciou a redução mundial até dezembro de 2018 do preço de
substituição da bateria fora da garantia, de 89 euros para 29 euros (de
380 reais para 125 reais), para todos os modelos do iPhone 6 ou um
modelo posterior. A Samsung, de acordo com a AGCM, insistiu em que os usuários do
Galaxy Note 4 instalassem em seus telefones celulares o Android 6.0
Marshmallow. Mas não avisou que essa atualização poderia causar falhas
no telefone que teriam um alto custo de reparo porque a maioria dos
celulares já estava fora da garantia. A empresa se mostrou
"decepcionada" com a decisão do órgão e negou ter lançado qualquer
atualização de software que reduzisse o desempenho do Galaxy Note 4.
"Vamos tomar as medidas legais necessárias para recorrer da decisão da
Autoridade da Concorrência italiana", afirmou a Samsung.
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