Abelhas voam livres de ameaças em Cuba, e seu mel
adoça a Europa
'Um pouco mais de recursos'
Fonte: AFP
AFP
11
Abr
2019
AFP / YAMIL LAGE Apicultores em Navajas,
Matanzas, Cuba, em 21 de março de 2019
Nos
montes da província de Matanzas, no oeste de Cuba, as abelhas voam longe dos
riscos presentes em outras partes do mundo, têm uma dieta rica em flores
silvestres e produzem mel de alta qualidade - com grande demanda na Europa.
Os
alarmes já estão acesos: a população de abelhas no planeta está diminuindo
devido à mudança climática, à agricultura intensiva, às pragas e aos
agroquímicos. Mas, na ilha, essas polinizadoras encontram um paraíso.
Entre a
vegetação rasteira - porque "a abelha não é da área urbana, nem da
agrícola, é dos montes" -, o engenheiro mecânico Rogelio Marcelo Fundora,
de 51 anos, e seu irmão, o professor Santiago Esteban, de 54, têm 600 colmeias
repletas de pequenas e esforçadas operárias.
Os irmãos
abraçaram a apicultura durante a crise econômica dos anos 90, após o colapso da
União Soviética, país de onde chegavam anualmente à ilha milhares de toneladas
de pesticidas, fertilizantes e herbicidas químicos para a agricultura.
Sem esses
recursos, em parte devido ao embargo aplicado pelos Estados Unidos, Cuba
começou a desenvolver biofertilizantes e biopesticidas, reduzindo a níveis
muito baixos o uso de agroquímicos - que estão dizimando colônias de abelhas
mundo afora e contaminando o mel.
AFP / YAMIL LAGE Abelhas em apiário em Navajas,
Matanzas, Cuba, em 21 de março de 2019
"No
ano passado obtivemos 80 toneladas de mel", conta Santiago à AFP por trás
de um véu preto que lhe protege das picadas do enxame, agora revoltado com a
presença de um intruso em sua colmeia.
Os
Fundora são, desde 2006, "reis" da apicultura na ilha, com
rendimentos de até 160kg de mel por colmeia, mais que o triplo na média
nacional, que é de 51kg.
"Não
existem milagres, existe muito trabalho" e "um trabalho incansável em
termos de troca de rainha, seleção da abelha, rotação dos favos",
acrescenta o professor, com a pele curtida pelo sol e pelo trabalho.
Dos seus
21 apiários, localizados a dezenas de quilômetros de sua casa, no povoado de
Navajas, 140km a leste de Havana, eles extraem mel, como dizem,
"limpo" - livre de agrotóxicos.
- Mel
orgânico -
AFP / YAMIL LAGE Apicultor manuseia mel em
Navajas, Matanzas, Cuba, em 21 de março de 2019
Em 2018,
Cuba produziu 8.834 toneladas de mel, 1.300 toneladas acima do previsto pela
estatal Empresa Apícola Cubana (Apicuba), uma quantidade pequena quando
comparada com a Argentina, maior produtor da região, que superou as 76.000
toneladas em 2017, segundo a FAO.
Do total
cubano, "cerca de 1.900" toneladas foram certificadas como mel
orgânico, um recorde nacional, afirmou à AFP o diretor do setor de Técnica e
Desenvolvimento da Apicuba, Dayron Álvarez.
De acordo
com Álvarez, a meta imediata da empresa é alcançar o recorde histórico de
10.200 toneladas de mel, que data de 1983.
Cerca de
95% do mel cubano é exportado, e os principais destinos são Alemanha, França,
Espanha, Grã-Bretanha e Suíça. "E estamos trabalhando para entrar no
mercado chinês e no mercado da Arábia Saudita", explicou Álvarez.
Cuba
exportou 6.779 toneladas de mel em 2017, com receita de 18 milhões de dólares,
segundo dados oficiais, o equivalente a 2.655 dólares a tonelada.
AFP / YAMIL LAGE Apicultor trabalha em Navajas,
Matanzas, Cuba, em 21 de março de 2019
A
Apicuba, que tem o monopólio sobre a comercialização do mel cubano, paga aos
produtores no máximo 1.000 dólares por tonelada de mel orgânico.
Cuba tem
1.660 apicultores, dos quais cerca de cem, entre eles os Fundora, estão em
processo para certificar seu mel como orgânico.
"Pela
tendência que houve de baixa aplicação de produtos químicos, pode-se dizer que
o mel de Cuba é quase todo orgânico", disse à AFP o biólogo Adolfo Pérez,
diretor do estatal Centro de Pesquisas Apícolas da ilha.
No campo
cubano, sem grandes riscos nem ameaças, as abelhas "gozam de uma saúde
muito boa", afirma Santiago.
"No
usamos nenhum tipo de químicos na hora de fumegar os apiários" ou de tirar
as ervas daninhas e "não usamos nenhum tipo de antibióticos",
detalha.
Ele
garante que com a técnica da "armadilha do favo de mel" - que atrai
as pragas e protege o resto da colmeia - conseguiram "controlar" a
varroa destructor, um ácaro que se tornou a principal ameaça à apicultura no
mundo.
'Um pouco mais de recursos'
No dia da
extração, os Fundora chegam ao monte a bordo do "Frankenstein", um
caminhão que Rogelio, que também é mecânico e motorista, mantém em circulação
com muita destreza, num país onde faltam peças de reposição.
Ele vai
acompanhado de oito jovens, a quem paga 80 dólares por mês - 50 a mais que o
salário estatal médio no país. Quase todos vestem uniforme verde militar, de um
tecido muito resistente e de uma cor que as abelhas "não veem".
No
caminhão há uma pequena indústria de aço inoxidável para processar o mel. O
processo é totalmente artesanal - e exaustivo. O sol está forte durante o dia.
AFP / YAMIL LAGE Funcionário etiqueta jarra de
mel em Havana, em 3 de abril de 2019
Primeiramente,
é retirada a cera que cobre as células dos favos de mel e em seguida eles são
introduzidos em uma centrífuga, na qual, sob golpes de manivela, o mel escorre
para os tanques.
Por
decreto, todos os apicultores cubanos, com mais de cinco colmeias, são obrigados
a vender seu mel para a Apicuba, que, em troca disso, lhes oferece combustível,
equipamentos e insumos a preços subsidiados.
Rogelio
considera que seus equipamentos estão "um pouco defasados". "Faz
falta uma máquina (centrífuga) que seja mais eficiente na hora de tirar o mel,
e o caminhão, que tem muitos anos de uso", queixa-se.
Seu
trabalho é tão artesanal quanto o de suas abelhas. Mas não basta apenas de
trabalhar duro, explica Rogelio, é necessário "um pouco mais de
recursos".
Fonte: AFP
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