Por que 84 mil pesquisadores do CNPq podem ficar sem bolsa a partir de outubro
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Por que 84 mil pesquisadores do CNPq podem ficar sem bolsa a partir de outubro
Rafael BarifouseDa BBC News Brasil em São Paulo
13 julho 2019
Direito de imagemGetty ImagesCNPq diz só ter dinheiro para pagar bolsas de pesquisadores até setembro
O tempo está correndo contra o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
A
agência de incentivo à pesquisa ligada ao Ministério de Ciência,
Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) tem um déficit de R$ 330
milhões no orçamento para bolsas neste ano. Assim, só tem dinheiro para
pagar os cerca de 84 mil pesquisadores nos próximos dois meses. "A
gente paga até setembro. Em outubro, ninguém recebe, porque não posso
fazer isso com um dinheiro que não tenho", diz o presidente do CNPq,
João Luiz Filgueiras de Azevedo, à BBC News Brasil.
De acordo com a Lei Orçamentária Anual aprovada no ano passado, o
CNPq pode gastar neste ano R$ 784,8 milhões com bolsas, o que é
insuficiente para cobrir a despesa total deste ano. O valor é 22%
menor dos que os R$ 998,1 milhões do ano passado, corrigidos pelo IPCA,
entre janeiro de 2018 e janeiro de 2019, quando foram promulgadas as
leis orçamentárias de cada ano.
Além disso, R$ 80 milhões da verba de 2019 teve de ser usada para cobrir bolsas do ano passado. Mas quais são as alternativas para evitar o apagão das bolsas?
Possíveis saídas
Havia
uma expectativa em torno dos R$ 248,9 bilhões que o Congresso autorizou
o Executivo a captar por meio de operações de crédito. A líder do
governo na Câmara, a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), afirmou à
imprensa que parte dos recursos seria destinada a bolsas do CNPq. Mas, procurado pela BBC News Brasil, o Ministério da Economia afirmou que "não está sendo destinado orçamento para o CNPq". Sob
pressão dos bolsistas, que planejam protestos, o ministro Marcos Pontes
pede que o Congresso libere R$ 310 milhões para as bolsas. "O tempo
está passando", disse em Salvador nesta semana. Para Flavia Calé,
presidente da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), o impasse
gera insegurança a milhares de pesquisadores, já que as bolsas de
pós-graduação exigem dedicação exclusiva e, portanto, são a única fonte
de renda formal. "Se as bolsas não forem pagas, um pós-graduando
tem poucas alternativas para se manter. Alguns podem ter ajuda de
familiares, outros vão para o mercado de trabalho informal para
sobreviver", diz Calé. "A bolsa deveria ser vista como uma
remuneração de um trabalho fundamental para o país desenvolvimento do
país, porque 90% da produção científica brasileira é feita pela
pós-graduação."
'Produção científica do Brasil vai muito bem, obrigado'
A
base dados aberta Scimago mostra que o Brasil deu um salto em sua
produção científica nas últimas décadas. Em 1996, o Brasil era o 21º
entre 214 países no volume de artigos publicados, com 9.169. Em 2018,
com 81.742 artigos, ficou em 14º entre 233 países. Direito de imagemABRJoão Luiz Filgueiras de Azevedo (esq.) foi nomeado
pelo ministro Marcos Pontes (dir.) em janeiro para presidir o CNPq
Azevedo diz que isso é um resultado do apoio à
pesquisa feito em parte pela agência que ele agora comanda e um sinal de
que a produção científica brasileira "vai muito bem, obrigado". "O
país, apesar das dificuldades de orçamento, continua produzindo muita
ciência e tem um destaque adequado no mundo. Fazemos parte da elite das
nações que produzem ciência. Na minha visão, é uma prova que nosso
sistema está funcionando", diz o presidente do CNPq. No entanto, o
ranking da Scimago mostra que a produção nacional tem hoje um baixo
impacto globalmente e que esta influência caiu significativamente nas
últimas décadas. A forma de medir isso é a média de vezes que os
artigos brasileiros foram citados por outros trabalhos científicos.
Neste critério, o Brasil é o 172º, com 0,5 citações por artigo, entre
233 países. Em 1996, era o 98º entre 214 países, com 18,45 citações por
artigo. Para Azevedo, isso deve em parte ao fato de que, em certas áreas, as pesquisas brasileiras têm um impacto local. "Nossa
ciência produz impacto. Há publicações brasileiras com um índice
elevado de citações. Mas, em muitas áreas, o impacto é mais local, o que
leva a um número baixo de citações. São coisas que interessam ao país e
não ao mundo como um todo, como alguma coisa ligada à agricultura que
tenha um aspecto regional", diz Azevedo.
'O CNPq não pode reclamar de contingenciamento'
Azevedo
foi nomeado para presidir a agência em janeiro deste ano. Até então,
era pesquisador do Instituto de Aeronáutica e Espaço e professor do
Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA). Ele é engenheiro aeronáutico
formado pelo ITA e tem mestrado e doutorado na Universidade Stanford,
nos Estados Unidos. Três meses depois de assumir, o governo
federal anunciou um contingenciamento de verbas para diversas pastas. No
caso do MCTIC, o bloqueio foi de R$ 2,13 bilhões, o que representa 42%
do seu orçamento neste ano. O CNPq foi afetado com um bloqueio de
R$ 111 milhões, ou 11% do orçamento de 2019. "De certa forma, o CNPq não
pode reclamar, porque o percentual contingenciado foi muito menor do
que o total do ministério", afirma. A forma encontrada para lidar
com isso, diz ele, foi prosseguir com as chamadas públicas para
projetos candidatos a financiamento, ainda que com valores menores do
que os previstos originalmente. Assim, em tese, todos os projetos
serão avaliados e ranqueados, e os que não puderem ser contemplados
agora ficarão em uma fila de espera e poderão ser financiados caso os
recursos sejam liberados antes do fim do ano. "É evidente que o
contingenciamento não é bom para ninguém, mas esse valor não foi
cortado. Gostaria de acreditar, talvez sendo um pouco otimista, que uma
parcela significativa desse valor, se não todo, vai ser
descontingenciado. Deixamos a porta aberta para executar esse recurso se
for o caso", afirma.
'Temos um sério problema de falta de servidores'
Azevedo
fez no mês passado um pedido ao Ministério da Economia para fazer um
concurso para preencher 192 vagas no CNPq. Ele explica que a agência
tinha 700 funcionários há cerca de cinco anos. Hoje, são cerca de 350. O
CNPq não faz concursos desde 2011. "Temos um problema sério de
falta de servidores e apresentei isso na minha primeira reunião com o
ministro. Todos os dias, assino uma, duas, três aposentadorias.
Precisamos repor quem está se aposentando", diz Azevedo. Direito de imagemCNPQAgência teve 11% de seu orçamento contingenciado neste ano
O presidente Jair Bolsonaro (PSL) afirmou no mês
passado que o governo decidiu reduzir os concursos públicos no Executivo
e restringi-los a poucas áreas, como a Polícia Federal e a Polícia
Rodoviária Federal. "Fora isso, dificilmente teremos concursos no Brasil
nos próximos poucos anos", afirmou Bolsonaro a jornalistas. O
ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que seria uma forma de enxugar
a máquina pública, já que 40% do funcionalismo federal deve se
aposentar nos próximos anos. O ministro também afirmou que houve um
"excesso de contratações" no passado. Diante deste cenário,
Azevedo reconhece que seu pedido tem poucas chances de ser atendido,
porque "o foco do governo está em outro lugar". "Minha função é
alertar sobre a necessidade da forma correta e com a ênfase necessária,
mas não posso obrigar o governo a fazer concurso. Ainda não estamos no
ponto de colapso e temos buscado tecnologia para fazer mais com menos
gente. Mas deve ter um número a partir do qual a coisa entra em colapso,
mas não sei dizer qual é nem quando vai acontecer", afirma.
'Bolsas precisam de reajuste, mas orçamento não permite'
Uma
demanda antiga dos pesquisadores do CNPq é o aumento do valor dos
auxílios. O último reajuste nas bolsas de mestrado, hoje de R$ 1.500, e
de doutorado, de R$ 2.200, foi feito em 2013. "Isso anda não gerou
evasão na pós-graduação, mas diminuiu a procura pela carreira
científica, que deixa de ser atrativa se o pesquisador não consegue
garantir seu sustento", diz Flávia Calé, da ANPG. "Com esse
valor, a gente precisa escolher entre pagar o aluguel, pagar para se
locomover, pagar nossa alimentação. Isso leva muito pesquisador a buscar
um trabalho precário ou a sair do país." O presidente do CNPq
reconhece que o valor é insuficiente. "Em alguns lugares, pode ser o
bastante, mas é realmente dificílimo para um menino que nasceu no
interior do Amazonas e hoje está em São Paulo fazendo doutorado viver
com esse dinheiro. É uma realidade, ninguém discute isso. É muito
difícil viver com esse dinheiro." Azevedo concorda ser necessário
reajustar as bolsas, mas diz que seu orçamento não permite. "Hoje, se eu
aumentar o valor da bolsa, vou ter de pagar menos bolsas. O reajuste é
um pleito natural, mas preciso ter dinheiro para isso." Azevedo ressalta que também é funcionário público federal. "O meu salário também não teve reajuste neste período..." Confrontado
com o fato de que sua remuneração é bem superior ao valor das bolsas de
pós-graduação, ele responde: "Sem dúvida alguma, só estou dizendo que
os salários do governo federal também não estão sendo reajustados. Mas
essa é uma discussão que está acima de mim. Tem que perguntar ao
ministro da Economia". Fonte: BBC
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