Por que o futuro do agronegócio depende da preservação do meio ambiente no Brasil
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Por que o futuro do agronegócio depende da preservação do meio ambiente no Brasil
Letícia MoriDa BBC News Brasil em São Paulo
16/07/2019
Direito de imagemPaulo Whitaker/ReutersDesmatamento afeta o regime de chuvas e o clima local e no continente como um todo
Se hoje a bancada
ruralista é a principal força pressionando o Congresso para flexibilizar
a proteção ambiental, é consenso entre agrônomos e pesquisadores que o
futuro do agronegócio depende da preservação ambiental.
Agrônomos, biólogos e entidades como a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) alertam que a destruição da vegetação nativa
e as mudanças climáticas têm grande potencial para prejudicar
diretamente o agronegócio no Brasil, porque afetam diversos fatores
ambientais de grande influência sobre a atividade agrícola. O
principal deles é o regime de distribuição das chuvas, essenciais para
nossa produção – apenas 10% das lavouras brasileiras são irrigadas. Com o
desmatamento e o aumento das temperaturas, serão afetados umidade,
qualidade do solo, polinizadores, pragas. A BBC News Brasil ouviu pesquisadores do agronegócio e nomes
ligados ao setor para entender como esses riscos gerados pela destruição
do ambiente devem afetar a produtividade das plantações brasileiras e
mesmo se safras se tornarão inviáveis. Eles dizem as notícias sobre o setor ambiental no Brasil não são animadoras: se o ritmo de desmatamento na Amazônia continuar como está, atingiremos em pouco tempo um nível de devastação sem volta.
Junho foi o mês com mais desmatamento na Amazônia, 920,4 km², desde o
início do monitoramento com sistema de alerta pelo Inpe (Instituto
Nacional de Pesquisas Espaciais), em 2015. Foi um aumento de 88% em
relação ao mesmo mês no ano passado.
Ao mesmo tempo, as pressões e cobranças internacionais chamam atenção para a agenda ambiental do governo Bolsonaro, que tem flexibilizado a legislação ambiental e diminuído a fiscalização. Direito de imagemGetty ImagesA Floresta Amazônica é questão central no debate ecológico internacional
Crise iminente
Atualmente, o agronegócio é responsável por 21,6% do PIB brasileiro, segundo o Ministério da Agricultura. Preocupados
com questões como logística, estrutura e desafios comerciais como o
vaivém das commodities no mercado internacional, a questão da
sustentabilidade acaba não sendo prioridade para o setor como um todo. "A
questão da sustentabilidade, no sentido amplo, é uma preocupação. Mas
em primeiro lugar vêm a estrutura e a logística e as questões
comerciais", afirma o agrônomo Roberto Rodrigues, ex-ministro da
Agricultura (2003-2006) e coordenador da área de agro da Fundação
Getúlio Vargas. No entanto, os riscos gerados pela devastação
ambiental na agricultura são uma ameaça muito mais iminente do que se
imagina, segundo o pesquisador Eduardo Assad, da Embrapa. Alguns estudos, como um feito por pesquisadores das Universidades Federais de Minas Gerais e Viçosa,
projetam perdas de produtividade causadas por desmatamento e mudanças
climáticas para os próximos 30 anos. Outros não trabalham com tempo, mas
com nível de devastação, como o estudo Efeitos do Desmatamento Tropical no Clima e na Agricultura,
das cientistas americanas Deborah Lawrence e Karen Vandecar, que afirma
que quando o desmatamento na Amazônia atingir 40% do território
(atualmente ele está em 20%), a redução das chuvas será sentida a mais
de 3,2 mil km de distância, na bacia do Rio da Prata. Direito de imagemGetty ImagesO agronegócio corresponde a mais de 20% do PIB brasileiro
Para Assad, que também é professor da FGV Agro e
membro do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, os efeitos da
destruição do ambiente e das mudanças climáticas já começam a ser
sentidos. Ele cita, por exemplo, o relatório da Associação dos
Produtores de Soja (Aprosoja) que mostra a perda de mais de 16 milhões
de toneladas na safra de soja deste ano devido a seca que atingiu as
principais regiões produtoras desde dezembro. "Já há evidências de que
as mudanças climáticas aumentaram o número de eventos extremos, como
secas e ondas e calor", afirma Assad. Há duas ameaças principais,
segundo Lawrence e Vandecar. A primeira é o aquecimento global, que
acontece em escala global e que é intensificado pelo desmatamento. A
outra são os riscos adicionais criados pela devastação das florestas,
que geram impactos imediatos na quantidade de chuva e temperatura, tanto
em nível local quanto continental. Deficiência hídrica e temperatura A
maior parte da produção agrícola brasileira depende das chuvas – só 5%
da produção total e 10% da produção de grãos são irrigados. Isso
significa que mudanças na precipitação afetam diretamente nossa
produção. O regime de chuvas é afetado por uma série de fatores –
desde a topografia até as correntes marítimas. Um fator importante é a
dinâmica de evaporação e transpiração terrestres, ou seja, a umidade
produzida pela respiração das árvores e plantas, explica o agrônomo da
USP Gerd Sparovek, professor da Esalq (Escola Superior de Agricultura
Luiz de Queiroz) e presidente da Fundação Florestal do Estado de São
Paulo. Esse fenômeno, chamado de evapotranspiração, é
especialmente alto em florestas tropicais como a amazônica – elas são o
ecossistema terrestre que mais movimenta água, transformando a água do
solo em umidade no ar e diminuindo a temperatura da atmosfera sobre
elas. "Ao cortar a vegetação natural que, durante o ano inteiro
joga água na atmosfera, umas das principais consequências é a formação
de menos nuvens no período seco", explica Assad, da Embrapa. "Um estudo
que acabamos de finalizar mostra um aumento significativo de deficiência
hídrica do Nordeste ao Centro-Oeste", diz. Direito de imagemGetty ImagesA destruição da vegetação nativa e as mudanças
climáticas vão prejudicar diretamente o agronegócio no Brasil.
Isso afeta as chuvas potencialmente até no Sudeste, já que há correntes de ar que normalmente empurram essas nuvens para sul. A
destruição da vegetação nativa afeta até a duração das temporadas de
chuvas e estiagem, segundo o estudo de Lawrence e Vandecar, que faz uma
revisão da literatura científica e foi publicado em 2014 na revista
Nature. O corte da vegetação nativa também altera a temperatura e
clima local, e potencialmente também o de regiões mais distantes,
explica Sparovek, da Esalq. "As alterações, nesse caso, são sempre
desfavoráveis." E isso vale não só para a Amazônia: a remoção do
Cerrado, onde hoje se encontra a principal expansão da fronteira
produtiva, também eleva a temperatura local. Esse problema é
reforçado pelo aquecimento global, que torna o clima mais instável e
aumenta a frequência de extremos, como ondas de calor e estiagens e
chuvas em excesso. E o desmatamento só intensifica esse processo. Direito de imagemGetty ImagesRisco para o agronegócio é maior quando altas
temperaturas são concomitantes com períodos de diminuição das chuvas
O risco para o agronegócio é especialmente grande
quando altas temperaturas são concomitantes com períodos de diminuição
das chuvas – isso diminui a produtividade das lavouras e pode
comprometer safras inteiras, diz o biólogo. Um efeito adicional do
comprometimento da disponibilidade de água tem a ver com a produção de
energia elétrica, que também é importante para o agronegócio, aponta
Sparovek. Um clima mais seco ou maiores períodos de estiagem podem
comprometer a vazão dos rios e dos reservatórios, afetando diretamente a
produção de energia, já que nossa matriz energética é em sua maioria
dependente de hidroelétricas.
Perda de área produtiva
A
retirada total das florestas também gera outros problemas relativos aos
recursos hídricos além da chuva, explica o biólogo Jean Paul Metzger,
professor da USP e doutor em ecologia de paisagem. A retirada da
vegetação nativa retira a proteção do solo, que não é reposta mesmo se a
área virar uma plantação, já que as raízes das plantas cultivadas são
muito superficiais. O solo cultivado também tem pouca permeabilidade. Isso
dificulta a infiltração da água no solo, o que gera dois problemas. Um é
a falta de reposição da água nos lençóis freáticos. A outra, é um
processo de erosão e poluição dos rios. "A chuva vai escoando
superficialmente e levando o solo junto, há uma perda da camada mais
fértil, vai tudo para o rio" diz Metzger. "E a partir de um certo
momento você não tem como reverter, há uma perda de área produtiva via
erosão."
Reserva Legal
A
melhor forma de evitar esse processo é manter a vegetação nativa –
inclusive nas propriedades rurais, onde a cobertura florestal pode fazer
uma filtragem das enxurradas antes de chegarem ao rio. Metzer aponta
que as propriedades produtivas devem ter cerca de 30% de cobertura
florestal, na média, para que o ciclo hidrólógico e os chamados serviços
ambientais funcionem normalmente. Serviços ambientais são
benefícios trazidos ao cultivo pelo ecossistema, como, por exemplo, a
polinização e o controle natural de pragas. Direito de imagemLarissa RodriguesO processo de respiração e transpiração das árvores afeta diretamente o regime de chuvas
"Paisagens onde há produção agrícola em
desequilíbrio com o ambiente são poucos favoráveis à produção. Os
inimigos naturais das pragas e doenças de plantas desaparecem, e a
produção passa a depender cada vez mais de agrotóxicos", diz Sparovek,
da Esalq. Daí, dizem os pesquisadores, vem a importância da
manutenção das reservas legais – áreas de mata nativa dentro de
propriedades rurais cujo desmatamento é proibido por lei. O índice de
proteção exigido é de 80% na Amazônia, de 35% no Cerrado e de 20% nos
outros biomas. O assunto esteve em pauta nos últimos meses, graças
a um projeto do senador carioca Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho do
presidente, que quer acabar com as reservas legais, citando o "direito à
propriedade". Pela Constituição, no entanto, nenhum direito à
propriedade é absoluto no Brasil – a construção em propriedades urbanas,
por exemplo, fica restrita às leis de zoneamento municipais.
Agrotóxicos
O uso indiscriminado de agrotóxicos também é um problema ambiental que acaba se voltando contra o próprio agronegócio. Ele
afeta principalmente os cultivos que dependem da polinização, já que os
animais polinizadores - abelhas, besouros, borboletas, vespas e até
aves e morcegos – são fortemente afetados por alguns tipos de inseticidas e até por herbicidas usados contra pragas em lavouras, sofrendo desde morte por envenenamento a desorientação durante o voo. Das 191 culturas agrícolas de produção de alimentos no país, 114 (60%) dependem de polinizadores, segundo o Relatório Temático sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil,
da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Em
resultado de safra, cerca de 25% da produção nacional é dependente de
polinização, segundo Assad, da Embrapa. Direito de imagemGetty ImagesDesmatamento e agrotóxicos prejudicam culturas que dependem de polinização
Além disso, o uso excessivo de agrotóxicos em
espécies resistentes se torna um problema para produtores vizinhos de
cultivos que não tem a mesma resistência. Produtores de uva do Rio
Grande do Sul têm registrado milhões de reais de prejuízo por causa do
herbicida 2,4-D, usado em plantações de soja. Ao se espalhar para as
propriedades produtoras de uva, ele chegou a reduzir a colheita de uva
em até 70%, segundo produtores do Estado. O Instituto Brasileiro do Vinho chegou a defender a proibição do uso do agrotóxico na região. O noroeste gaúcho é campeão nacional no uso de agrotóxicos,
segundo um mapa do Laboratório de Geografia Agrária da USP com dados do
IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Questão da Produtividade
Até
hoje, olhando a série histórica, a produtividade do agronegócio no
Brasil só aumentou. A produção do milho, por exemplo, subiu de 3,6
ton/ha em 2009 para 5,6 ton/ha em 2019 (previsão), de acordo com dados
da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento). "O aumento da
produção muitas vezes é usado como argumento pra dizer que não está
acontecendo nada (em termos de efeitos da mudança climática). Mas a
produtividade aumenta porque antes era muito baixa, porque estamos
implementando as diversas tecnologias existentes", afirma Assad, que
também é membro do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas. "O teto de
produtividade do milho, por exemplo, é de 10 toneladas por hectare
considerando a tecnologia existente." Isso não quer dizer, diz ele, que os efeitos da devastação não terão um impacto na produtividade. Segundo cálculos no modelo feito por cientistas das Universidade Federais de Minas Gerais e Viçosa, em 30 anos as perdas na produção de soja podem ir de 25% a 60%, dependendo da região, graças ao desmatamento da Amazônia. Até
a pecuária pode ser afetada, com a produtividade do pasto caindo de 28%
a 33% e alguns lugares deixando de ser viáveis para a atividade.
Expansão?
Mas por que ainda há resistência em aceitar a visão de que a devastação do meio ambiente prejudica o agronegócio? Segundo
Sparovek, da Esalq, narrativas que defendem a necessidade de expandir a
fronteira agrícola não têm embasamento científico. Ele afirma que
"quando se analisa a necessidade de expansão do agronegócio brasileiro
prevista pelo próprio setor até 2050, não se vê necessidade alguma de
desmatar e expandir a fronteira agrícola." "Temos áreas abertas o
suficiente para produzir a demanda projetada e ainda restaurar a
vegetação em uma quantidade enorme de terras", diz o agrônomo. Direito de imagemGetty ImagesAgrotóxicos afetam polinizadores e podem prejudicar lavouras vizinhas que não são resistentes a eles
Só na Amazônia, há 17 milhões de hectares cortados, desmatados e abandonados, segundo Assad, da Embrapa. Além
das terras abertas existentes, há uma enorme possibilidade de
incremento da produtividade através de implementação tecnológica, afirma
o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues. Assad, da
Embrapa, afirma que soluções boas para a produção e para o ambiente –
como técnicas de agricultura de baixa emissão de carbono e boas práticas
de manejo de solo e água – têm se tornado cada vez mais acessíveis, e
que uma maior organização de cooperativas agrícolas é necessária para
aumentar o acesso dos pequenos produtores a tecnologias e avanços. Sparovek
afirma que a expansão da fronteira, especialmente na Amazônia, não
interessa diretamente, não ajuda a produzir – especialmente com o avanço
tecnológico que exige um terreno mais plano pelo tamanho e velocidade
das máquinas. "Isso é uma agenda muito mais ligada à valorização
imobiliária das terras e à grilagem. Quem se beneficia disso é o
especulador do mercado de terras, lícito ou criminoso." Segundo
Rodrigues, o Brasil é um país gigantesco que não tem "uma agricultura ou
um agricultor", mas diversos grupos com interesses diferentes. A
existência de agricultores que não têm preocupação nenhuma com
sustentabilidade ou com o longo prazo é "um pouco uma questão de
educação, cultura e formação técnica adequada." "Temos 4,4
milhões de produtores que seguiram o Código Florestal e fizeram o
Cadastro Ambiental Rural (mecanismos de regulação das práticas
agrícolas)", diz Assad. "É 1 milhão de agricultores que fazem essa
confusão toda. É só um povo que produz como na idade média (que tem
interesse no desmatamento)."
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