Assim foi o primeiro dia na Terra depois do asteroide que acabou com os dinossauros
Um
estudo reconstitui minuto a minuto o que se passou há 66 milhões de
anos, graças a um cilindro de rocha extraído da zona do impacto
Miguel Ángel Criado
10 set 2019 - 14:16 BRT
O cilindro de sedimentos foi extraído de aproximadamente 1.300 metros sob o leito marinho e estudado por segmentos.Foto: ECORD/IODP Vídeo: Reuters/Next Animation Studio
Cerca de 66 milhões de anos atrás, um milênio a mais ou a menos, um asteroide atingiu a Terra no que hoje é o Golfo do México.
O choque foi de tal magnitude que a teoria dominante entre os
cientistas indica que causou o desaparecimento de 75% da vida, a começar
pelos dinossauros. Agora, o estudo de um cilindro de rocha extraído da
cratera causada pelo impacto permitiu reconstituir minuto a minuto que
se passou há tanto tempo. E foi um verdadeiro inferno.
Em
2016, a Expedição 364 à cratera Chicxulub, no noroeste da Península de
Yucatán (México), perfurou a zona de impacto. Não cavaram na parte
central, mas na borda externa da cratera. Extraíram um cilindro rochoso
de uns 1.334 metros abaixo do fundo do mar. Segmentado em partes, seu estudo por um grande grupo de geólogos e
cientistas de outros campos conta a história em capítulos tão precisos
como os dos anéis de árvores ou núcleos extraídos do gelo, embora
milhões de anos se tenham passado.
A maior parte da cratera se encheu de sedimentos nas primeiras 24 horas depois do impacto
“É
uma das vantagens com as crateras de impacto. Sua formação segue leis
físicas muito bem definidas", diz o pesquisador do Centro de
Astrobiologia/CSIC e coautor do estudo, Jens Olof Ormö. "Podemos
reconstituir uma sequência de eventos [por exemplo, ver quais sedimentos
seguem um acima do outro]. Pelo tipo de sedimento [tamanho dos clastos
(fragmentos), tipo e classificação], podemos saber se o depósito foi
rápido ou lento, e aproximadamente o tempo que isso levou", explica.
Em
Chicxulub, o impacto do asteroide liberou uma energia equivalente à de
10 bilhões de bombas como a de Hiroshima. Volatilizou enormes
quantidades de material. Estudos anteriores estimaram que liberou na
atmosfera 425 gigatoneladas de CO2 e outras 325 de sulfuretos (uma
gigatonenada equivale a 1 bilhão de toneladas métricas). Um penúltimo
dado: o tsunami subsequente levou água do Caribe para os Grandes Lagos
do norte dos Estados Unidos, a cerca de 2.500 quilômetros da zona de
impacto.
Mas o que mais interessou aos geólogos foi a
rapidez com que a maior parte da cratera foi preenchida com os restos do
choque brutal. Estima-se que em apenas 24 horas o buraco tenha sido
coberto com uma camada de cerca de 130 metros de sedimentos, que são os
que eles estudaram agora. Aí está escrita a história do primeiro dia de
vida na Terra após o impacto. Aí os geólogos estabelecem a divisão entre
duas eras, a do mesozoico e a do cenozoico atual. E é aí que quase tudo
indica que começou a extinção dos dinossauros e o surgimento dos
mamíferos.

Segundo o estudo, publicado na PNAS,
os 40-50 metros inferiores, formados por rochas fundidas e
fragmentárias (lacunas) se depositaram minutos após o impacto. Uma hora
mais tarde teria surgido outra camada de cerca de 10 metros, composta de
suevite, rochas de vidro e outros materiais fundidos. Horas depois,
outros 80 metros foram preenchidos com sedimentos mais finos. No final
do dia, o refluxo da água retirada com o impacto arrastou até ali
enormes quantidades de material da região e áreas muito remotas.
Entre
os últimos sedimentos, os pesquisadores encontraram uma grande
quantidade de material orgânico, especialmente um rastro de fungos e
muito carvão vegetal. Isso deve ter vindo dos restos dos incêndios
causados pelo impacto e pela queda de materiais incandescentes nas
florestas de centenas de quilômetros ao redor.
"Com um
asteroide de 12 quilômetros atingindo Yucatán, os efeitos locais devem
ter sido catastróficos e provavelmente também em distâncias de até 1.500
quilômetros do impacto, onde o impacto térmico pode ter provocado a
queima das árvores. Em distâncias maiores, o material ejetado também
teria causado incêndios por atrito à medida que caía na atmosfera. Mas
esses efeitos devem ter sido de curta duração e não podem explicar a
extinção global de 75% da vida", diz em um e-mail, o principal coautor
do estudo, o professor do Instituto de Geofísica da Universidade do
Texas (EUA), Sean Gulick.
"Estamos diante de evidências empíricas da conexão entre o impacto do asteroide e a grande extinção"
Essa
parte da história começou naquele dia, mas deve ter durado anos. Na
rocha extraída das bordas internas da cratera Chicxulub há uma notável
ausência de materiais sulfurosos. Não há vestígios de enxofre na área e o
momento do impacto, embora as rochas ricas em sulfeto sejam abundantes.
Esses dados reforçam a teoria de que o asteroide expeliu enormes
quantidades de sulfetos na atmosfera, impedindo a radiação solar e
resfriando o planeta. As simulações indicam que a temperatura média
global caiu 20 graus e assim permaneceu durante uns 30 anos.
"Estamos
diante de evidências empíricas da conexão entre o impacto do asteroide e
a grande extinção", diz o pesquisador da UNAM (Universidade Nacional
Autônoma do México) e um dos líderes do grupo de pesquisa, Jaime
Urrutia, que está estudando a cratera de Chicxulub há várias décadas.
Para ele, a grande contribuição deste trabalho é a resolução temporal
que oferece sobre a sequência de eventos que se seguiram a um impacto
ocorrido há 66 milhões de anos e que marcou o destino do planeta.
Fonte: El País

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