Alertas pelo celular contra o coronavírus, uma arma contra a pandemia e um debate sobre privacidade
Monitorando
60 milhões de celulares, 10 milhões só em São Paulo, startup trabalha
com 11 Estados para monitorar isolamento social via geolocalização.
Senado adia vigência de lei de proteção de dados
Flávia Marreiro

“Por
favor, não saia. Você deve se manter em isolamento social”. “Atenção,
filas longas no supermercado. Evite fazer compras agora.” Alertas do
tipo, via push, chegam em massa aos celulares dos moradores de todas as
capitais brasileiras, como parte do combate à pandemia do coronavírus. As mensagens são direcionadas de acordo com o perfil de cada um
—quer seja um idoso que não deve sair de casa em hipótese alguma ou um
adulto prestes a deixar seu apartamento para adquirir os alimentos da
semana. Quer morem em bairro central ou da periferia. O panorama
descrito é o sonho de André Ferraz, CEO da In Loco, uma startup
brasileira que está usando uma tecnologia de geolocalização para
trabalhar com a Prefeitura de Recife e outros 11 Estados na tentativa de
conter a velocidade dos contágios da doença.
Ferraz
deseja aplicar o método, que se inspira em algumas práticas do
bem-sucedido modelo de combate da Covid-19 na Coreia do Sul,
nacionalmente. Para isso, precisa, por exemplo, convencer o Ministério
da Saúde a incluir a ferramenta no app para o novo coronavírus que a própria pasta disponibiliza.
Todo o experimento na capital de Pernambuco começou na semana passada e
depois se expandiu. A empresa afirma que consegue projetar o nível de
isolamento de cada bairro da cidade (quantas pessoas ficaram em suas
vizinhanças) e, num segundo momento, direcionar mensagens customizadas a
cada um com base na tecnologia que já mantém “embarcada” nos celulares.
A In Loco já disse ter doado informes a Alagoas, Amapá, Amazonas,
Maranhão, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, MInas Gerais, Pará,
Paraíba e Santa Catarina.
Funciona assim: aplicativos de
banco (como Santander) e de varejo (Magazine Luíza ou Hering) já levam
embutidos um código da In Loco que permite rastrear onde exatamente cada
dono de celular está num dado momento. O banco de dados da empresa tem
60 milhões de dispositivos monitorados: 700 mil só em Recife, por
exemplo. No Estado de São Paulo, a marca chega a 10 milhões de
aparelhos. Ferraz afirma que a tecnologia é 30 vezes mais precisa que o
GPS e acaba conferindo a cada pessoa uma identidade única, com base no
seu padrão de deslocamento, ainda que sem vinculação com nome ou CPF.
Normalmente, esse RG geolocalizado é usado pela empresa para
detectar comportamentos atípicos e impedir fraudes bancárias ou para
enviar propaganda geolocalizada —uma área que a empresa diz estar
“desinvestindo”. As cifras impressionam e mostram como cada micropasso
de cada um já é usado pelas empresas sem que as pessoas tenham real dimensão, a não ser uma vaga ideia por meio de termos de adesão.
Seja como for, a questão agora ganha uma nova camada: a empresa quer
colocar o arsenal a serviço do combate da pandemia e afirma que dá para
fazer isso com respeito à privacidade.

“No
caso de Recife, eles conseguiram ver qual era o bairro que ainda estava
com movimentação muito grande. Aí mandaram um caminhão do corpo de
bombeiros para fazer um alerta”, contou Ferraz ao EL PAÍS. Segundo a
medição da empresa, por exemplo, 66% das pessoas do bairro de Santo
Amaro, em Recife, ficaram em sua vizinhança em um dia da semana da
semana passada. A segunda etapa, ele diz, é mandar alertas para todos os
recifenses que tenham aplicativos da Prefeitura, sempre de acordo com o
perfil epidemiológico.
São Paulo e preocupação com privacidade
A empresa também começou a processar dados de todos os Estados brasileiros para fornecer um “índice de isolamento”, que pode ser consultado neste link.
No caso da cidade de São Paulo, a In Loco diz que 58% da população, na
média, ficou em casa na quarta-feira, 25 de março, por exemplo, um dia
depois de entrar em vigor a quarentena decretada pelo Governo João
Doria. A taxa, no entanto, variou bastante. Em geral, na zona mais rica
da cidade, o centro expandido, houve maior deslocamento do que nas
franjas da cidade, segundo a empresa. "Os bairros de periferia foram os
que mais respeitaram o isolamento, enquanto os bairros de classe mais
alta foram os que menos respeitaram. A gente viu esse padrão acontecendo
tanto em Recife como em São Paulo”, diz Ferraz.
O
serviço da In Loco não é único. Empresas de telefonia estão trabalhando
com os Governos do Rio e São Paulo, por exemplo. Para o modelo funcionar
em escala, no entanto há várias condicionantes que não estão dadas no
Brasil. No caso da Coreia do Sul, o Governo só conseguiu fazer uma vigilância cibernética
sem precedentes de infectados e de toda a cadeia de infecção porque
começou o trabalho com bastante antecedência (ainda não havia a chamada
transmissão sustentada, quando já não se sabe quem infectou quem). Além
disso, a Coreia do Sul obrigou, por exemplo, todo mundo que entrou no
país a baixar um app específico da Covid-19. Os doentes também eram
obrigados a tê-lo e, se infringissem o isolamento, eram multados. Sem
falar num ponto ainda mais delicado: as leis mais frouxas quanto à
proteção de privacidade.
Por que o brasileiro aceitaria
ser monitorado dessa forma? Ferraz diz que a ferramenta é melhor que a
sul-coreana porque permite o anonimato. “É a única solução de
geolocalização que anonimiza o dado. A gente conseguiu equilibrar a
questão de conseguir fazer um bom monitoramento ao mesmo tempo em que se
protege a liberdade individual, a identidade das pessoas, para que esse
lado dado não seja usado contra ela”, garante o CEO.
Segundo
ele, a empresa só entregou à Prefeitura de Recife um relatório
estratégico, sem identificação de qualquer usuário. “É uma tecnologia
anônima, privada, voluntária e pode vir a ter uma efetividade
gigantesca”, se empolga o cofundador da In Loco que começou a
desenvolver a tecnologia há 10 anos, quando era estudante da
Universidade Federal de Pernambuco. “Nós somos uma empresa de 120
pessoas. A gente se considera uma startup porque, por exemplo, até duas
semanas atrás, éramos uma empresa puramente de segurança cibernética e
tecnologia de localização. E de uma semana para cá a gente descobriu que
a nossa solução de segurança também pode ser usada para conter
pandemia. A chave de descoberta ainda está válida.”
Para contornar os temores quanto à privacidade, a empresa de Ferraz disponibiliza um app para pessoa desabilitar a ferramenta
de georreferenciamento, se assim o desejar. A questão é que mesmo o
dado de que não quis ser monitorado pode ser valioso para a inteligência
do Estado, por exemplo. Uma ferramenta hoje contra a pandemia pode ser
usada amanhã contra manifestações? O debate é crucial e movimenta o
mundo inteiro: a pandemia fará o mundo relaxar ainda mais no controle de dados, uma área já considerada falha?
“O risco é que sejam colocados em prática sistemas não regulados e
impenetráveis ao escrutínio público – não apenas pelo tempo necessário
para lidar com a Covid-19 – mas como base para sistemas de vigilância de
massa e de exploração de dados de longo prazo”, critica a a ONG Privacy
Internacional, a respeito do uso de tecnologias em países como o Reino
Unido. "Já vimos como dados de telefonia celular, como metadados de localização, foram usados para rastrear visitantes em espaços públicos, monitoramento de mulheres em protestos, entre outros”, segue a organização, que também questiona a segurança sobre anonimização dos dados.
Nesta
sexta, o Senado aprovou um projeto que adia para o ano que vem a
vigência do Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), que entrará em vigor
em agosto deste ano. O texto ainda precisa ser chancelado pela Câmara
antes de começar a valer, mas já levantou críticas de entidade que lutam
pela proteção dos dados, que criticam a postergação.
Ferraz
diz que, seja como for, sua tecnologia já respeita a LGPD. O CEO está
otimista. Além de querer ver o invento no país, ele diz ter um sonho
ainda maior: que a ferramenta ajude a encontrar “um meio termo”
cientificamente seguro para ir afrouxando o isolamento social.
Fonte: El País
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