Por que as videoconferências nos esgotam psicologicamente?
Especialistas concluem que a ausência de contato físico exige mais atenção
José Mendiola Zuriarrain
06 may 2020 - 12:23 BRT

A crise do coronavírus
atingiu em cheio as organizações. Elas se viram obrigadas a forçar o
teletrabalho, exceto em casos imprescindíveis, para evitar a interrupção
das atividades. Esse novo formato enviou milhares de pessoas para suas
casas e as forçou a adaptar nelas um novo espaço de trabalho, que
precisa ser compartilhado com os demais moradores. E a tecnologia veio
em seu socorro, com um desempenho tão bom que é possível até mesmo
realizar reuniões por videoconferência, obtendo resultados, a priori,
semelhantes aos de um encontro cara a cara. Mas é assim mesmo? Alguns
especialistas alertam que o uso de ferramentas para videoconferências
aumenta o nível de estresse dos participantes.
As complicações da ausência de comunicação não verbal
É
tentador pensar que uma reunião realizada com câmera de vídeo pode ser o
substituto adequado para uma presencial, mas a verdade é que o corpo
humano as decifra de uma forma completamente diferente, segundo as
conclusões de Gianpiero Petriglieri, professor do Insead, e Marissa
Shuffler, professora da Universidade Clemson. Esses especialistas se
referem às chaves de comunicação que se perdem em uma videoconferência,
como o tom de voz, uma parte das expressões faciais e os gestos físicos.
Ao não serem tão evidentes em uma videoconferência, o participante se
vê obrigado a prestar mais atenção e no fim, principalmente se houver
muitos participantes, a reunião pode ser esgotadora.
“A
linguagem não verbal é o primeiro ingrediente da comunicação oral”,
explica ao EL PAÍS Yago de la Cierva, professor de Gestão de Pessoas em
Organizações do IESE Business School, da Universidade de Navarra.
“Equivale a mais de dois terços do que a pessoa quer compartilhar:
fornece a interpretação e o significado.” Em uma videoconferência, isso
fica muito limitado, “há duas dimensões em vez de três, geralmente
ficamos sentados e quietos, e o controle do espaço é muito importante”,
assinala o especialista. A ausência dessa terceira dimensão é que
desencadearia, no final, um esforço psicológico excessivo.
“Quando
um dos componentes da comunicação está ausente ou limitado − como
acontece nas videoconferências −, emissor e receptor se veem obrigados a
prestar mais atenção e a fazer um esforço maior para se expressar e
para entender corretamente um ao outro”, explica Ignacia Arruabarrena,
professora associada do Departamento de Psicologia Social da
Universidade do País Basco. Esse desgaste se intensifica “se houver mais
pessoas envolvidas na videoconferência”, segundo Arruabarrena.
Silêncios incômodos e a fadiga psicológica da quarentena
Mas
não seria justo atribuir o estresse às videoconferências, e sim ao
próprio confinamento, que provoca uma apatia, e também à mudança do
ambiente de quem trabalha remotamente. A obrigação de ficar encerrado em
casa propícia “um estado de profunda distração, no qual estamos todos
nós nesta pandemia”, segundo De la Cierva. “Estamos inquietos, com um
tremendo déficit de atenção que nos faz vagar de uma coisa para
outra porque não conseguimos nos concentrar.” Essa situação faz com que,
no meio de uma videoconferência, os participantes, em suas respectivas
residências, tendam a se distrair dando uma olhada no celular ou nas redes sociais. “No final, captamos menos porque estamos distraídos.”
Outra
circunstância que causa tensão nas videoconferências são os silêncios:
em um encontro presencial, lida-se com eles de forma natural, sem que
seja preciso forçar nada, mas não ocorre a mesma coisa em uma reunião
com uma câmera na frente, na qual só vemos os rostos dos participantes.
Quem já participou de uma teleconferência sabe que as intervenções não
fluem de forma natural, a não ser que haja um moderador que dê a
palavra; o habitual é que uns atropelem os outros, ou, pelo contrário,
que os intervalos entre cada fala sejam preenchidos por silêncios
incômodos.
Como se isso não bastasse, as
videoconferências têm uma dificuldade adicional que, paradoxalmente,
deveria facilitar as coisas: a audiovisual. “A imagem televisiva precisa
de manipulação para que reflita a verdade”, explica De la Cierva. “Se
quisermos parecer naturais, temos de atuar um pouco; se quisermos que
nosso rosto saia normal, temos de nos maquiar; se quisermos que nossa
voz se escute melhor, temos de subir ou baixar o tom de uma forma meio
artificial.” Tudo isso “exige um esforço que provoca tensão em quem não
está acostumado − em resumo, ficamos esgotados antes”.
As videoconferências chegaram para ficar
Não
são, é claro, uma ferramenta nova, mas a inesperada irrupção das
ferramentas para reuniões por vídeo não parece ser algo passageiro.
Entre elas, a Zoom está conquistando grande parte do protagonismo no
mercado, passando de 10 milhões para 300 milhões de usuários diários em
poucos meses (só no último mês, a base de usuários cresceu 50%). Derek
Pando, diretor de marketing da empresa, defende um bom planejamento
antes da convocação de uma videoconferência: “Uma boa regra geral antes
de agendar uma reunião é considerar se vale a pena o tempo que você vai
investir: um e-mail rápido, uma mensagem por chat ou um telefonema de 30
segundos pode ser suficientes para comunicar sua mensagem e não é tão
exigente como uma reunião por vídeo”.
Pando também
sugere, quando possível, ser rigoroso no uso dos locais. “Se você se
conectar com seus amigos ou sua família na cozinha, em vez de usar o
escritório onde trabalha, criará um clima mais relaxado e evitará a
sensação de que está em outra ligação de trabalho”, explica. O sucesso
dessas plataformas motivou que gigantes como o Facebook
a acelerar sua entrada no mercado com o Rooms, em um primeiro momento,
permitindo posteriormente as chamadas de vídeo de até oito usuários no
WhatsApp.
Fonte: El País
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