Quarentenas funcionam para combater o coronavírus? Veja o que dizem os estudos
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Dezenas de estudos
científicos apontam que medidas de distanciamento social têm sido
eficazes para reduzir o número de infectados e mortos ou diminuir a
sobrecarga dos hospitais. Mas, em geral, elas não conseguem debelar a
pandemia sozinhas, sem a ajuda de testagem em massa ou rastreamento de
infectados, e dependem muito da adesão popular em cada país.
Mas
se a eficácia do distanciamento é consenso entre especialistas, por que
parte dos governantes e cidadãos pede seu fim? Principalmente por causa
do custo socioeconômico desse fechamento, que gera desemprego e empresas
quebradas.
No Brasil e nos Estados Unidos, os respectivos
presidentes contestam também a eficácia da medida sob diversos
argumentos, como o de que alguns países tiveram milhares de casos mesmo
com quarentenas e outros triunfaram sem adotar esse distanciamento em
massa. Para eles, a gravidade da doença não justifica o confinamento de
todo mundo, mas só dos grupos de risco — ainda que isso seja inviável,
segundo especialistas.
Ao todo, mais de 3 bilhões de
pessoas no mundo chegaram a ser submetidas, ao mesmo tempo, a medidas
como suspensão de aulas, fechamento de comércio não essencial e
distanciamento físico. Em alguns lugares, o cumprimento das normas é
obrigatório.
Segundo alguns dos principais grupos de pesquisas de
epidemia do mundo, quanto menos gente circula nas ruas, mais devagar a
doença se espalha. E quanto mais cedo isso acontece, menos gente ficará
doente no fim. Logo, é consenso entre pesquisadores que o distanciamento
físico entre as pessoas funciona, e o principal problema agora é como
sair dele. Segundo dois pesquisadores americanos,
para cada 1 ponto porcentual a mais de pessoas que fazem viagens
diárias não essenciais, aumenta em 7 pontos porcentuais o número de
novos casos.
Marcelo
Gomes, pesquisador em saúde pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e
coordenador do InfoGripe, que monitora os casos de covid-19 e outras
síndromes respiratórias, cita como exemplo a relação entre a adesão
popular ao distanciamento social e o número de internações por causa da
doença.
Nas últimas duas semanas de março, havia menos gente nas
ruas brasileiras. Em seguida, percebeu-se uma diminuição significativa
nas internações e mortes. Semanas depois, o cenário se inverteu e o
número de pessoas fora de casa cresceu. Duas semanas depois, a
quantidade de gente internada aumentou consideravelmente.
Há impacto também no número de mortes que poderiam ser evitadas. Dois cientistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) afirmaram que uma vida seria salva por minuto ao longo de duas semanas caso o Brasil mantivesse o patamar de distanciamento social.
Em carta aberta, 39 pesquisadores brasileiros afirmaram
que "todas as projeções que fizemos, assim como comparações com o que
aconteceu em outros países, mostram que muitas vidas foram salvas devido
à redução da taxa de contágio e preservação da capacidade de
atendimento hospitalar".
A adoção de quarentenas, distanciamentos
e isolamentos foi tema de dezenas de estudos científicos publicados ao
redor do mundo. Mas até que ponto eles cravam a eficácia dessas medidas?
Em uma revisão crítica,
11 pesquisadores analisaram 29 estudos feitos em três epidemias de
coronavírus, sendo 10 deles nesta de covid-19. Eles apontam que medidas
de distanciamento diminuem "em 44% até 81% o número de pessoas com
doença, e reduzem em 31% até 63% o número de mortes", segundo o trabalho
publicado pelo Instituto Cochrane, sob encomenda da Organização Mundial
da Saúde (OMS).
Outros estudos vão além da eficácia do
distanciamento e analisam o depois, mais especificamente, o impacto
econômico que a testagem em massa gera ao ser associada a um isolamento
mais seletivo, apenas de doentes ou de quem teve contato com infectados.
Um deles, assinado por dois pesquisadores dos EUA e um da Alemanha,
afirma que essa estratégia salvaria vidas e permitiria uma retomada
maior da economia porque as pessoas saudáveis se sentiriam mais seguras
de circularem sem incertezas sobre quem está infectado nas ruas.
Para
cientistas, o problema não é flexibilizar o isolamento, como defende
parte dos governantes e dos cidadãos. Ninguém da área científica defende
longas quarentenas, mas, sim, a reabertura com todos os cuidados
necessários para evitar novas ondas de casos, como testes em massa,
rastreamento de infectados e ter superado o pico de casos. Mas essa
lição de casa o Brasil ainda não fez.
Séculos de confinamentos
Quarentenas
são adotadas pelo menos desde o século 14 como forma de evitar o
espalhamento de doenças infecciosas. Elas variam em grau e duração, mas,
em geral, envolvem um período de isolamento de pessoas infectadas ou
que tiveram contato com alguém doente.
"Quando medidas de
quarentena são introduzidas, elas não são apenas baseadas em cálculos
médicos sobre se serão ou não eficientes para parar ou reduzir o avanço
de uma doença infecciosa", explicou Mark Harrison, professor de história
da medicina na Universidade de Oxford, à BBC. "Você toma medidas como
quarentena para atender a expectativas de outros governos, e também para
tranquilizar sua própria população."
O distanciamento de
populações inteiras é mais raro. No início do século 20, como o
isolamento apenas de pessoas doentes não foi suficiente para conter o
espalhamento da gripe espanhola (1918-20), muitas localidades passaram a
adotaram esse bloqueio total, envolvendo pessoas saudáveis que nem
tiveram contato com alguém infectado.
Estudos posteriores apontaram que as cidades à época que tiveram maior e mais longo distanciamento social registraram menos mortes.
Nos anos 2000, o controle feito por governos durante
períodos de isolamento chegou a um novo patamar durante a epidemia de
Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars, na sigla em inglês), ligada a
um tipo de coronavírus. O governo chinês ameaçou executar ou prender
qualquer um que fosse encontrado violando as regras da quarentena e
espalhando o contágio.
"Durante o surto em 2003, quando começou a
se espalhar para outros países, confinamentos de vários tipos foram
usados extensivamente. Essas medidas de contenção foram ligadas ao
sucesso de se ter conseguido evitar que a situação pandêmica fosse
pior", disse Harrison, da Universidade de Oxford.
Evidências nos estudos
Na
pandemia atual de covid-19, o distanciamento social amplo envolve uma
combinação diferente de medidas em cada lugar — a exemplo do fechamento
de escolas e de comércios não essenciais, da suspensão de transporte
público e da proibição de circulação de pessoas nas ruas.
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Cada uma dessas medidas tem seu nível de eficácia,
que varia conforme a faixa etária, por exemplo. Fechar o comércio tem
mais impacto no combate ao contágio de idosos do que de jovens.
Um
estudo de sete pesquisadores da Alemanha, publicado na revista Science,
levantou o impacto de três níveis de distanciamento social adotados
pelo governo alemão. Segundo eles, o espalhamento da doença cai justamente na esteira de cada uma dessas intervenções.
Na primeira, são cancelados eventos públicos. Na segunda, são fechadas
lojas não essenciais e escolas. Na última, surge o veto ao contato entre
as pessoas.
O resultado, segundo esse estudo, é que a taxa de
contágio desaba. Ou seja, antes das medidas, 100 infectados contaminavam
outras 43 pessoas. Depois das três fases de distanciamento, esse número
cai para 15.
Na atual pandemia, muitas dessas pesquisas giram
em torno da taxa de contágio (R0). Ou seja, a medida adotada foi ou não
capaz de reduzir o número de novos casos? O timing faz diferença?
Faz,
segundo um estudo da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, que
ainda não foi revisado por outros pesquisadores. O trio de pesquisadores
indicou que se cidades e Estados americanos tivessem começado a adotar
distanciamentos sociais uma semana antes, quase 36 mil vidas teriam sido salvas. Em cinco meses, ao menos 100 mil pessoas morreram nos EUA em decorrência da covid-19.
Cada lugar é um caso
Mas
isso não significa que essas medidas vão funcionar sempre em todos os
países. Há uma série de variáveis envolvidas, como o tamanho da
população, a quantidade de pessoas que não tem condições financeiras de
ficar em casa e o grau de adesão das pessoas às normas adotadas pelo
governo.
"O distanciamento depende do que a população faz na vida
real. Quando o governo alemão mandou parar de andar na rua, as pessoas
pararam. No Peru, um país muito mais pobre, as pessoas saíam de casa
mesmo quando o governo afirmou que estava tudo fechado, porque elas
precisavam ganhar dinheiro", explica Marcio Bittencourt, professor do
Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein e mestre em
saúde pública pela Universidade Harvard.
Ele cita o exemplo da
Noruega, que começou cedo com um distanciamento agressivo, ganhou tempo
para montar sua estratégia pós-confinamento com testagem massiva e
rastreamento e agora está reabrindo sua economia com mais segurança. A
vizinha Suécia, que se baseia na adesão voluntária dos cidadãos ao
distanciamento social, tem uma taxa de mortes por 100 mil habitantes dez
vezes maior que a norueguesa. O recuo do PIB deve ser equivalente.
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"É sempre perigoso adotar a estratégia de qualquer
outro país e implementá-la no seu, sem refletir sobre como ela
funcionaria em seu território. É preciso ter cuidado ao adotar modelos
de outros países sem levar em consideração a sua situação local
específica, inclusive em termos históricos", ressalta o epidemiologista-chefe da Suécia, Anders Tegnell, à BBC News Brasil.
Outro
ponto é que estudos apontam que, em geral, o distanciamento social por
si só não é suficiente para dar fim à pandemia. Surge então um impasse.
Se a doença não vai embora com as medidas adotadas, deve-se reabrir a
sociedade e seguir em frente ou fechá-la ainda mais?
Segundo
especialistas, uma das formas mais seguras de deixar para trás o
distanciamento que afeta a população inteira e evitar novas ondas de
contágio é adotar uma estratégia tripla que associe testes em massa, o
rastreamento e o isolamento de todo mundo que teve sintomas ou contato
com pessoas doentes.
Esse tipo de ação vai isolando os novos
infectados à medida que eles vão surgindo, sem precisar fechar a
sociedade inteira por causa de casos, a princípio, pontuais. O
importante aqui é o isolamento seletivo e o monitoramento constante da
pandemia para que ela não saia do controle.
Segundo um artigo assinado por sete pesquisadores italianos na revista especializada Nature Medicine, medidas de distanciamento social precisarão ser associadas à testagem em massa e ao rastreamento de pessoas que tiveram contato com infectados para encerrar a pandemia.
Essa
estratégia também causaria uma ruptura menor no mercado de trabalho. Em
um estudo recente, a Organização Internacional do Trabalho estima que
as medidas de testagem e rastreamento podem reduzir pela metade as perdas em horas trabalhadas por causa da doença.
"Existe
uma recomendação da Organização Mundial da Saúde com seis critérios
para uma reabertura, como ter condições de monitorar e controlar
pequenos surtos. Mas o mais importante é que cada cidadão tenha
consciência do que é preciso fazer para combater a pandemia, mas isso é
muito difícil de ser alcançado com tantas mensagens contraditórias entre
autoridades e na mídia", afirma Claudia Lindgren, professora e
pesquisadora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas
Gerais (UFMG).
O que se questiona nas medidas de distanciamento social?
Historicamente,
há uma série de críticas feitas à adoção de medidas de distanciamento
social, envolvendo tanto aspectos de saúde pública quanto a restrição a
direitos individuais em nome do interesse coletivo e a relação entre os
custos socioeconômicos e os benefícios sanitários da medida.
No
século 19, o médico britânico Charles MacLean foi um dos principais
contestadores das quarentenas e ajudou a transferir o debate da esfera
médica para a pública.
Há um movimento parecido atualmente. As
críticas ao distanciamento social passam mais pelo impacto
socioeconômico que ele acarreta do que por sua eficácia para evitar
mortes ou sobrecarregar hospitais, por exemplo.
Mas, ainda assim,
céticos afirmam que as projeções de cientistas, que previram milhões de
mortes se os governos não adotassem o distanciamento, não se
concretizaram porque os cálculos estavam errados (e não porque as
medidas surtiram efeito). Eles afirmam também que a trajetória da
pandemia seria naturalmente igual sem as medidas de distanciamento
social.
"Se isso fosse verdade, veríamos o mesmo gráfico de
aumento e queda dos casos em todos os países. E o que vemos é a
diferença que fazem as medidas adotadas", rebate Bittencourt, do
Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein.
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Veja abaixo alguns dos principais argumentos
utilizados por uma parte minoritária dos políticos e pesquisadores
contra as quarentenas.
1. "Quando o espalhamento está avançado, as medidas de distanciamento social ampliam o contágio em casa."
O que diz a ciência: De
fato, depois que o confinamento obrigatório da população inteira foi
adotado no primeiro epicentro da pandemia, a cidade chinesa de Wuhan,
detectou-se que 80% dos contágios aconteciam em casa. Mas o número
absoluto de novos casos ficou muito menor. Além disso, a China adotou
uma estratégia de quarentena central. Ou seja, as pessoas foram
separadas de suas famílias para evitar essa transmissão domiciliar e
levadas a instalações do governo até deixarem de passar a doença.
2. "Há
países que conseguiram conter a pandemia por ora sem confinamento em
massa da população, a exemplo da Suécia e da Coreia do Sul."
O que diz a ciência: Todos
os países adotaram pelo menos alguma forma de distanciamento social, e
apenas uma minoria não chegou a fechar escolas ou lojas não essenciais.
Mas em geral, o que fez a diferença para governos com estratégias bem
sucedidas, como na Coreia do Sul e na Nova Zelândia, foi ter implantado
medidas duras de isolamento rapidamente enquanto montava uma estratégia
de testes em massa e rastreamento de infectados e seus contatos. Isso
permitiu que depois esses países pudessem flexibilizar o distanciamento
mais cedo e de forma mais segura. Essas medidas bem-sucedidas fazem
parte do que preconiza a OMS como pré-requisitos para uma reabertura.
A
Suécia é tida como um exemplo diferente porque se baseou principalmente
na adesão dos cidadãos ao distanciamento social, sem fechamento de
escolas ou do comércio. Não houve colapso do sistema de saúde, como
alguns cientistas previram, mas o país tem uma taxa de mortos bem maior
que a de seus vizinhos e um recuo do PIB do mesmo patamar de quem adotou
quarentenas.
3."O custo do distanciamento social é desproporcional à gravidade da doença."
O que diz a ciência: A
taxa de letalidade da covid-19 é um dos principais argumentos de quem
critica a adoção de medidas de distanciamento social. Para eles, uma
doença que mata em torno de duas a cada 100 pessoas infectadas não pode
paralisar a sociedade inteira. Eles defendem a quarentena dos mais
vulneráveis e a retomada da atividade econômica geral. Mas a maioria dos
principais epidemiologistas do mundo apontou que isso levaria à morte
de milhões de pessoas porque o sistema de saúde entraria em colapso e as
vítimas nem sempre pertencem aos grupos de risco. Além disso, no início
de maio, as mortes por covid-19 já estão entre as 3 maiores causas de óbito no Brasil.
4. "Isolada e sem contato com o vírus, a maioria da população continuará vulnerável à doença e não haverá imunidade de grupo."
O que diz a ciência: O
argumento aqui gira em torno do conceito de imunidade de grupo (ou
imunidade de rebanho), mais aplicado à vacinação. Segundo ele, quanto
mais pessoas adquirirem imunidade, menos o vírus vai circular na
sociedade e ameaçar os vulneráveis. Para alguns pesquisadores, esse
patamar seria atingido caso 70% das pessoas desenvolvessem anticorpos,
mas isso seria alcançado a um custo social altíssimo, com milhões de
mortes. Segundo Lindgren, da UFMG, um estudo apontou que para se atingir
a imunidade de 70% da população de Minas Gerais, considerando uma taxa
de letalidade de 1%, seriam perdidas 145 mil vidas nesse processo. "Isso
não é justificável." Críticos do distanciamento social, por outro lado,
afirmam que, se uma parte considerável da população não criar
imunidade, não adianta reabrir a economia porque novas ondas de infecção
virão. Isso não é necessariamente verdade, já que um sistema eficiente
de testes e rastreamento evitaria novas explosões de casos.
5. "Vai morrer mais gente de fome com quarentenas do que por coronavírus."
O que diz a ciência: Como
já foi dito anteriormente, o impacto socioeconômico da pandemia depende
de uma série de variáveis. Entre elas, a velocidade com que se contém o
avanço da doença em cada país e as medidas de suporte que os governos
adotam para os atingidos, como pagamento de auxílio financeiro,
empréstimos a empresários e proteção de empregos. Segundo projeções da
Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), a retração
econômica em consequência da pandemia empurrará quase 30 milhões para a
pobreza na América Latina. Mas as experiências internacionais, segundo
especialistas, mostram que isso está mais associado à falta de apoio
financeiro dos governos do que à adoção de distanciamento social ou não.
Fonte: BBC
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