A universidade pós-covid-19
Pandemia está acelerando uma crise do ensino superior que vinha de longe
Javier Sampedro
06 jun 2020 - 15:40 BRT
/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com/prisa/XGSRRO2HCJHGJIITBSIMT2FQWQ.jpg)
O coronavírus
não vai inventar uma nova universidade, mas pode acentuar sua crise e
acelerar muito as mudanças que já estavam sendo cozidas há anos em fogo
lento. Um dos problemas, maior ou menor segundo a universidade
e país, é o aumento descontrolado das mensalidades, que obviamente
deteriora a igualdade de acesso ao ensino superior. O coronavírus não
criou essa tendência, mas vai exacerbá-la. Tampouco o SARS-CoV-2
inventou as aulas on-line, pois isso já era uma tendência havia um par de décadas, mas é evidente que também dará um empurrão decisivo a essa propensão.
A
Universidade de Cambridge já anunciou oficialmente que as aulas magnas
serão a distância, e muitas outras mudanças virão depois, mesmo que em
modelos híbridos entre o digital e o presencial, como propõem algumas
universidades espanholas. Isto volta a gerar questionamentos sobre a
equidade, pois nem todas as famílias estão nas mesmas condições de
oferecer a seus filhos os computadores, tablets e espaços domésticos
necessários para se concentrar no estudo. Alexandra Witze examina estas questões na Nature.
Outro
obstáculo ainda maior em longo prazo é que as faculdades sejam
obrigadas a deslocar seu foco de interesse para as questões locais,
nacionais e iminente. É provável que muitos tenham que trilhar esse
caminho incerto e claramente aquém do ideal, estimulados pelas
estreitezas financeiras e a necessidade de melhorar sua imagem diante
das acusações de elitismo e do maremoto de ceticismo contra qualquer
instituição pública que alimenta a cada minuto o lado sombrio da força
nas redes sociais.
A ciência é a melhor ferramenta que temos e teremos para entender o mundo e nossa posição nele, os perigos que nos espreitam e suas soluções mais prováveis
Isto seria um desastre de
consequências duradouras e lamentáveis. A ciência é um empenho
internacional, a melhor ferramenta que temos e teremos para entender o
mundo e nossa posição nele, os perigos que nos espreitam e suas soluções
mais prováveis, o que vale também para as lições da História e as
ferramentas para extrair um conhecimento valioso da psicologia humana e
de seus agregados sociais. No dia em que as universidades se dedicarem
sobretudo aos problemas do pequeno pedaço de chão que as abriga, às
pragas locais e aos recursos minerais da zona ou da santa nação, aos
caprichos semicultos do secretário de Educação da vez, nesse dia o
avanço do conhecimento estará perdido. Isto tampouco foi inventado pelo
coronavírus, mas “a pandemia está acelerando essas mudanças de forma
tremenda”, como diz Bert van der Zwaan, ex-reitor da Universidade de
Utrecht e autor de Higher Education in 2040: a Global Approach (“ensino superior em 2040: um enfoque global”).
Até mesmo o Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT),
uma das melhores universidades do mundo, que vem há 18 anos dando
cursos online ― e posso atestar que são excelentes ― está cortando um
doze para migrar seu materiais para uma versão on-line. A universidade
está em apuros.
Fonte: El País
Comentários
Postar um comentário
Todas postagem é previamente analisada antes de ser publicada.