Covid-19 e o desmatamento amazônico
Desmatadores
ilegais não estão em isolamento como recomendam os governos, e tendem a
aproveitar o eclipse institucional provocado pela pandemia para agir
André Guimarães|Claudia Azevedo-Ramos|Paulo Moutinho

Esta preocupação espera-se que seja também a do vice-presidente da República, Hamilton Mourão,
à frente do Conselho Nacional da Amazônia Legal, que em meio à pandemia
manteve na semana passada uma reunião com seus integrantes do Governo
―ainda que longe dos olhos da sociedade, incluindo da imprensa.
Sob
a ameaça virótica, aqueles agentes públicos que prestam um inestimado
serviço de manter, lá na ponta, o cumprimento das leis ambientais
estarão ausentes ou com suas ações de fiscalização e controle limitadas.
Certamente, o isolamento é a principal arma que temos contra o vírus
neste momento e protegê-los é fundamental.
Os
desmatadores ilegais, contudo, não estão em isolamento como recomendam
os governos, e tendem a aproveitar o eclipse institucional provocado
pela Covid-19
para agir. Nos próximos meses, ainda sob o turbilhão imposto pela
pandemia e com a chegada da seca em grande parte da região amazônica,
podemos presenciar um forte aumento do desmatamento.
Os primeiros sinais que vêm do campo são preocupantes. As
taxas de desmatamento no início de 2020, antes de surgir o alarme em
torno da Covid-19, já indicavam uma atividade expressiva das
motosserras. Segundo o DETER, sistema de alerta de desmatamento do
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em janeiro deste ano
houve um aumento de 52% na área sob alertas de desmatamento em relação
ao mesmo mês do ano anterior; em fevereiro, foi 25% superior ao mesmo
mês de 2019. A crise dos incêndios de 2019, com repercussão mundial, estava ligada ao aumento do desmatamento e ainda está clara na memória.
Como
prevenção mínima, é preciso que o poder público mantenha os meios de
monitoramento remoto na região, apoiando o trabalho de agências como o
INPE, o ICMBio, o IBAMA
e a Polícia Federal, tomando todos os cuidados necessários para
assegurar a segurança de seus funcionários. Recursos do congelado Fundo
Amazônia devem ser urgentemente destravados pelo Governo para o combate
ao desmatamento. Toda atenção deve ser dada aos povos indígenas
da região, guardiões da floresta, que estão desprotegidos. Em Brasília,
o Congresso Nacional não deve colocar em votação temas que exigem um
amplo debate com a sociedade e que estimulariam o desmatamento no país
em meio a esta catástrofe, como a Medida Provisória 910, que literalmente legaliza a grilagem, e o projeto de lei que altera o processo de licenciamento ambiental.
O
fim do desmatamento amazônico é crucial para que não tenhamos de
enfrentar outras crises no futuro próximo, em especial em um momento de
economia fragilizada pelos efeitos prolongados da pandemia. A Amazônia,
entre diversas riquezas biológicas, é fundamental para a produção de
chuva que irriga o agronegócio,
que por sua vez é responsável por parte considerável do PIB brasileiro.
As duras lições que estamos tirando da Covid-19 nos mostram que ações
integradas de prevenção funcionam. No caso da Amazônia, lavar as mãos
para a ação de grileiros neste momento é contabilizar novos prejuízos
socioambientais e econômicos num futuro próximo.
André Guimarães, agrônomo, é diretor-executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM). Claudia Azevedo-Ramos, bióloga, é professora titular do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará. Paulo Moutinho, biólogo, é cientista sênior do IPAM.
Fonte: El País
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